terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cultura de Resistência


O que uniu esta gente toda no dia 13 de Outubro foi um ato político, de resistência. Nunca se assistiu a tal sentimento de revolta e união dos agentes culturais. Texto de Alexandre Oliveira, produtor; Bruno Moraes Cabral, realizador; Carlos Mendes, músico; João Camargo, engenheiro; José Gema, fotógrafo; Paula Nunes, gestora de projetos culturais; Rui Franco, arquiteto, Sofia Nicholson, atriz. Publicado originalmente no Público.
Os géneros mais diversificados sucederam-se em palcos ao ar livre em 23 cidades, dando lugar aos alinhamentos mais improváveis. Foto de Helena Oliveira
Num mês, assistimos às maiores mobilizações da sociedade desde o 25 de Abril. Desde o 15 de Setembro, pessoas de todas as áreas juntam-se, organizam-se, fazem manifestações semanais sem precedentes. A manifestação cultural de 13 de outubro foi outro acontecimento histórico. Milhares de profissionais do palco, do som, da luz, da imagem, da música, da dança, do teatro, do circo, do cinema, da literatura, das artes performativas, das artes plásticas e da produção de espetáculo deram a cara e o seu trabalho contra o Governo, contra a austeridade. Com o apoio material de várias empresas e organizações do sector, construiu-se a maior manifestação cultural desde o 25 de Abril sem meios financeiros e num tempo recorde – dez dias.
Os géneros mais diversificados sucederam-se em palcos ao ar livre em 23 cidades, dando lugar aos alinhamentos mais improváveis. Em Lisboa, na Praça de Espanha, foi uma autêntica maratona cultural desde as 17h, com abertura pela orquestra de mais de cinquenta músicos dirigidos pelo maestro Christopher Bochmann e os Toca a Rufar, até à meia-noite e meia, com Deolinda e o coro Acordai.
Sem tréguas e de forma perfeitamente sincronizada, assistiu-se a tudo um pouco. Entre os Homens da Luta e o Quarteto Lopes Graça, ouviu-se entre outras jazz de Maria Viana e da Jazzafari Unit, Manuel João Vieira e canto lírico de Lúcia Lemos. Maria do Céu Guerra interveio com Essa Gente, poema de Ana Hatherly, entre muitos nomes do teatro, da televisão e do cinema, como Carla Bolito, Álvaro Faria, João Reis, Catarina Wallenstein, André Gago, Rui Morrisson, que leram textos e poesia. Ouviu-se a fadista Gisela João cantando à capela Os Vampiros, de José Afonso, no pôr do Sol, e muito mais tarde a Inquietação, de José Mário Branco, cantada por Camané e musicada pelos Dead Combo. Entretanto, passamos pelo punk-rock dos Peste e Sida, o hip-hop de Chullage, a música dos Balcãs dos Farra Fanfarra e muito pop-rock com Rádio Macau, a Naifa e Diabo na Cruz. A dança esteve também no palco, com Sofia Neuparth, Vera Mantero, Aldara Bizarro e um coletivo contemporâneo que se juntou para a manifestação.
É impossível descrever tudo o que aconteceu neste dia 13 na Praça de Espanha. A projeção gigante no arco lembrou-nos quão indispensável é o serviço público de televisão e mostrou-nos imagens das mobilizações mais recentes contra o Governo. Dezenas de artistas circenses animaram o local entre as palavras de ordem do público contra a troika e o FMI. Dezenas e dezenas de milhares de pessoas passaram pela Praça de Espanha e puderam descobrir pela primeira vez um género, um autor ou cruzar-se naturalmente com uma personalidade das artes do espetáculo.
O que uniu esta gente toda no dia 13 de outubro foi um ato político, de resistência. Nunca se assistiu a tal sentimento de revolta e união dos agentes culturais. "Que se lixe a troika - queremos as nossas vidas!" foi o mote, e foi muito mais além, contra o Governo, contra a tirania dos mercados financeiros, as políticas de austeridade e este Orçamento do Estado.

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