O correspondente financeiro do Le Monde em Londres lançou em Lisboa o livro "O Banco - Como o Goldman Sachs dirige o mundo" e falou do ex-gestor do banco a quem Passos Coelho entregou o dossier dos negócios das privatizações.
Capa do livro "O Banco - Como o Goldman Sachs dirige o mundo"
“O senhor Borges estava fora do meu radar quando escrevi o livro, nunca tinha ouvido falar”, afirmou Marc Roche à Rádio Renascença, acrescentando que apenas tomou conhecimento do economista “quando se demitiu do FMI”. As fontes do jornalista no FMI disseram-lhe que “se livraram dele porque não estava à altura do trabalho. E agora chego a Lisboa e descubro que está à frente do processo de privatização. Há perguntas que têm de ser feitas”, declarou o autor do livro que mostra as relações de grande proximidade de gente que passou pelo Goldman Sachs e por governos de países onde o banco teve influência.
“Os italianos Mario Draghi e Mario Monti, o grego Lukas Papademus, o português António Borges, todos eles são antigos membros do Goldman Sachs. Não é uma seita, não é uma irmandade. São pessoas com carreiras brilhantes, que se conhecem e partilham os mesmos valores entre eles. Pessoas com os mesmos objetivos e que atuam da mesma forma”, declarou Marc Roche à agência Lusa. "De vez em quando perguntamos 'o que diabo andou a fazer no Goldman Sachs?' mas eles não respondem. A não ser Draghi, que disse ter lidado com situações corporativas e que nunca mexeu em assuntos relacionados com dívida soberana dos países. Mas tal como os outros, o senhor Borges é um mistério para mim", confessa o jornalista.
“Não acredito na teoria da conspiração, não há um plano do Goldman Sachs para dominar o mundo. A única missão do banco é produzir lucros nem que seja a ajudar os gregos a enganar as finanças ou os portugueses no processo de privatizações – para eles é negócio, não é política”, acrescentou.
Roche defendeu que a falta de ética e as "imoralidades" cometidas pelas instituições financeiras deviam ser levadas a tribunal. “A opinião pública sente-se enganada e pressionada pela austeridade imposta, em parte, para pagar os erros da banca e ainda nenhum banqueiro pagou pelos erros. Quando ponho a questão aos banqueiros eles respondem que a imoralidade e a falta de ética não são crime. Por isso, às vezes, calcam o risco amarelo da imoralidade mas não ultrapassam a linha vermelha da legalidade. Temos de começar a pensar em julgar a imoralidade”, propôs o jornalista.
“Os políticos não têm interesse nos processos contra os bancos e a prova disso é o Goldman Sachs, assim como outras organizações financeiras. Tony Blair trabalhou para a JP Morgan, Prodi trabalhou para o Goldman Sachs, políticos na Bélgica trabalharam para a Dexia, Monti para o Goldman Sachs e Papademos, na Grécia, é próximo da Goldman Sachs. Nenhum deles tem interesse em levar estes problemas a tribunal”, lamenta Roche, que considera que os erros dos bancos estão a ser pagos pelos cidadãos.
O livro "O Banco - Como o Goldman Sachs dirige o mundo" recebeu o Prémio de melhor livro de Economia 2010, atribuído pela Associação de Jornalistas Económicos e Financeiros de França. A edição portuguesa é da Esfera dos Livros.
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