quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

RDP: Telejornais omitiram depoimentos que indicam pressões do Governo

O fim do programa de opinião da Antena 1 que emitiu críticas à elite angolana continua na agenda parlamentar e o Bloco quer saber qual a razão da RTP ter divulgado apenas uma versão dos depoimentos: a do diretor Luís Marinho, acusado de silenciar o "Este Tempo". Entretanto, PSD e CDS impediram o secretário de Estado da Cultura de esclarecer os deputados sobre a venda da Tobis a uma empresa de capitais angolanos.
Desde que regressou de Luanda, Miguel Relvas está no centro das suspeitas de pressões para silenciar as vozes críticas ao regime angolano.
Desde que regressou de Luanda, Miguel Relvas está no centro das suspeitas de pressões para silenciar as vozes críticas ao regime angolano. Foto STR/Lusa
"Tendo a comissão parlamentar ouvido duas versões contraditórias sobre o processo que levou ao fim do programa, é com estranheza que vemos que só uma das versões foi referida no Telejornal da RTP", diz o requerimentoapresentado pela deputada bloquista Catarina Martins.
De facto, o visionamento dos telejornais da estação pública revela que apenas a versão sustentada pelo Diretor Geral Luís Marinho foi emitida. "As audições de quem sustentou uma versão diferente (o ex-adjunto da direção de informação da RDP, Ricardo Alexandre, e o Provedor, Mário Figueiredo) não tiveram sequer qualquer referência no Telejornal", acrescenta o requerimento.
"Naturalmente, não se trata de questionar os critérios editoriais da RTP, mas de compreender se existiu alguma interferência nas opções da direção de informação que justifiquem o desequilíbrio observado", refere ainda Catarina Martins, que chama agora à comissão o diretor de informação da RTP, Nuno Santos, e o ex-diretor de informação da RDP, João Barreiros para clarificarem o papel de Luís Marinho neste processo.
Este fim de semana juntou-se mais uma voz aos que acusam o diretor-geral de ter acabado com o programa por causa da crónica de Pedro Rosa Mendes, muito crítica da elite político-financeira angolana e da relação subalterna que com ela mantém o ministro Miguel Relvas, a propósito da presença deste num programa televisivo da RTP transmitido em direto de Luanda. O jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares revelou um episódio passado em 2004, quando também era cronista na Antena 1 e Luís Marinho o diretor da estação. "Desde a tomada de posse que fui crítico contundente do Governo Santana Lopes, até que um dia o Luís Marinho me chamou e começou com uma conversa circular acabando por confessar que achava que a minha crónica devia ser substituída por um outro tipo de intervenção qualquer, talvez enquadrada com outros, e na qual ele iria meditar", afirma Sousa Tavares.
O cronista acrescenta não ter dúvidas que Luís Marinho "continua fiel ao seu roteiro, tendo assim servido o Governo Santana Lopes, o Governo Sócrates e agora o Governo Passos Coelho/relvas — e sempre a subir". Em declarações ao Diário de Notícias, Sousa Tavares diz agora esperar "que o Luís Marinho seja demitido, como deve".
Mas enquanto o parlamento discute as suspeitas de censura na imprensa a opiniões contrárias à rede de José Eduardo dos Santos na política e nos negócios, a presença do capital angolano nos media portugueses aumentou na semana passada com a compra da Tobis. Há dois meses, a maioria PSD/CDS recusou a presença do secretário de Estado para dar explicações sobre o futuro da empresa, alegando ser ainda cedo para esclarecimentos públicos. Agora, com o negócio fechado por 3,78 milhões de euros e com Francisco José Viegas a dizer que o Estado nunca teve contacto direto com os novos donos da Tobis - a empresa Filmdrehtsich Unipessoal Lda - o Bloco reclamou de novo a sua presença no parlamento.
Segundo a deputada bloquista Catarina Martins, a Assembleia "não pode assistir passivamente à perda da Tobis sem inquirir sobre as consequências desta venda, o futuro seus dos trabalhadores e do cinema e audiovisual português”. Mas os deputados do PSD e do CDS voltaram a não concordar com a audição e assim livraram Francisco José Viegas de dar as explicações sobre o misterioso negócio que alienou a empresa com quase oito décadas de experiência em serviços de pós produção, restauro e conversão de filmes para formato digital. 

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