Há medida que se multiplicam as notícias sobre um possível incumprimento da Grécia, multiplicam-se as pressões sobre o Governo grego para que faça o impossível: Que num contexto de recessão económica, desemprego descontrolado, desastre social, paguem dívidas incomportáveis. A sra. Merkel e os seus ecos, de Trichet a Pedro Passos Coelho multiplicam-se em ultimatos, numa mistura de moralismo, chantagem e intimidação.
É esta a cegueira de quem dirige o projecto europeu. Perante o descalabro das suas escolhas, os líderes europeus continuam a caminhar determinadamente para o abismo. E com eles a Europa. Depois do ciclo em que nos diziam que o problema das dívidas não iria alastrar e estava circunscrito a meia dúzia de mal-nascidos, há quem pense que é possível pôr a Grécia de quarentena até se portar melhor. Já se enganaram várias vezes, mas agora é mais grave, a fase que segue não é de meses. Se a Grécia decretar o default, teremos a mãe de todas as crises de dívida, será agora e será europeia.
Uma eventual saída (ou expulsão) da Grécia da zona Euro, significaria uma hecatombe económica. A Grécia enfrentaria uma crise bancária sem precedentes, uma desvalorização cambial violenta, que faria disparar os valores da sua dívida externa, pública e privada, que, obviamente, não poderia pagar. Esse incumprimento lançaria ondas de choque incontroláveis por toda a Europa, como um dominó que cai em todas as direcções. No momento em que a Grécia anunciar a sua incapacidade para pagar a dívida, a grande pergunta que se colocará a todos protagonistas da política europeia será esta: uma Europa solidária ou a desagregação? Uma política coordenada para o crescimento ou o cada um por si?
Infelizmente, sabemos qual é a resposta dos três maiores partidos aqui pelas nossas bandas. A política é a Troika, o compromisso é a Troika, a salvação é a Troika. PSD e CDS estão a aproveitar a sua oportunidade histórica para se desforrarem do 25 de Abril, atirando-se como nunca antes aos grandes pilares do Estado social e da democracia no trabalho. Já o PS aproveita todas as medidas da direita que extravasam o conteúdo do memorando, mas não perde uma hipótese de reafirmar o seu compromisso com tudo o que lhe é estruturante. Nem o benefício de ver o que está acontecer à Grécia merece a mais pequena reflexão. O pior cego é o que não quer ver.
Igualmente bizarra é a posição da Alemanha. A cada dia que passa é mais claro que nenhum país fica imune à crise do Euro. A crise europeia trouxe a estagnação à Alemanha, mas nem esse facto, tão simples de observar, parece sensibilizar os responsáveis alemães, que se preparam para dinamitar o projecto que se revelou tão lucrativo para os seus sectores exportador e financeiro. Por outro lado, os muitos trabalhadores alemães que, ao contrário dos seus patrões, têm boas razões para estar insatisfeitos com o processo de construção europeia, serão cada vez mais difíceis de ganhar para o projecto de uma Europa solidária.
Haverá alguma luz ao fundo do túnel? Talvez. Uma coisa é o que dizem estes responsáveis agora, outra poderá ser o que vão dizer a partir do dia em que a Grécia parar de pagar. As soluções estão em cima da mesa e têm sido debatidas até à exaustão: eurobonds, harmonização fiscal, orçamento para políticas expansionistas europeias, regulação e tributação a sério do sector financeiro. Haverá presença de espírito para as implementar? E virá a lucidez a tempo de unir os europeus e impedir o desastre? A janela de oportunidade fecha-se a cada dia que passa e só a pressão da esquerda, para não dizer de toda a gente sensata, a poderá reabrir. Numa Europa de cegos, quem tem um olho é solução.
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