Cantando à severa
Se Malhoa pintasse agora a cidade capital não se lhe pressentiria aquele fado que as guitarras acompanham. Não emanaria da tela o cheiro a vinho das vielas, essa palavra que sempre aparece nas letras destas canções sobre a cidade.
Não sei se o fado é uma canção. Costuma-se dizer que é um lamento, uma nostalgia cantante ou cantadeira, uma saudade árabe, que a guitarra remata. Começou por ser uma coisa popular, um código vadio de ditos e chistes deixados ao acaso em diálogos críticos e cantados, em desafios de improviso. A igreja, sempre tolerante, refilou, reprimiu e amordaçou esta forma de estar, este modo de ser, esta espontaneidade criativa.
O fado virou faduncho. Uma coisa chorada e choramingas, um emblema de pobreza que se canta a si própria, uma melopeia arrastada.
Os fascistas aproveitaram o fado, mais propriamente o faduncho, para dizer que a vida era assim. A vida portuguesa era assim porque os portugueses eram precisamente assim, criaturas fatalistas, aconchegadas à miséria, ao beco e à tal viela, ao álcool, e ao gemido. O corpo era a traição, uma traição gingada, com uma navalha ou uma viola tristonha, com muita lágrima desesperada por amores trocados e apunhalados. Nesses fados fadunchos, nesses destinos, o país inexistia. Não havia país, só ciúme, só cilada amante. Era o destino. Um destino de amargura e saudade na viela de má fama que este país era, como dizia uma canção contestatária. Um destino embuçado, um destino marialva, um destino cretino atestado, melhor dizendo, abarrotado de subserviências, obediências e conformismo.
O fado foi depois recuperado como música daqui. Daqui, deste Portugal do depois, renascido numa data que se comemora todos os anos. Até ver.
O fado libertou-se da carga, da canga ajudante e coadjuvante, libertou-se da função de alfaia cultural habilmente utilizada pelo regime da bota e do velho que se eternizou pesado durante quase meio século.
Das tabernas antigas só o nome sobrevive. As tabernas são hoje sítios gourmet.
De tabernas fica só a nostalgia oblíqua e esverdeada do nome, que tem uma conotação de tertúlia bêbeda. Algumas havia que só vendiam copos de três a alcoólicos. Também havia aquelas que tinham pastéis de bacalhau com vários dias e crostas secas, ovos cozidos dentro de recipientes com sal, jaquinzinhos de escabeche, passarinhos fritos e o mesmo cheiro a ranço. Essas eram as dos copos e petiscos. As outras eram dos ébrios de desesperança. Tascas antros. Conversas manhosas, de má qualidade, aquelas que o álcool concede.
O fado recuperado também canta a inquietude amarga da vida que se vai cumprindo; canta também o amor e a traição, a luz e as sombras da existência. Mas não é um hino ao tem que ser, dá a volta ao destino, à sina, à buena dicha.
Querem-nos pôr novamente à luz do petróleo. Uma luz muda, silenciosa, uma luz amarelada de pleno declínio, onde a guitarra da desventura desliza, com palavras sofridas, num beco de inevitabilidade e nenhuma esperança. Ouvindo, todos, atentamente, boçal, um faia banal cantando à severa. Severamente cantando à severa.
Para quem não sabe, faia é fadista.
O tempo não está para fadunchos. Mesmo para os que foram votados. Há muito que fazer. Voltar as costas ao destino, ou fazer-lhe um grandessíssimo manguito. Eles que cantem à vontade nos antros próprios dos camarins ministeriais o fado da desgraçadinha ao som da guitarra de uma troika que tem a sensibilidade musical de uma porta. Que cantem o fado da sistemática impiedade na pouca-vergonha das vielas governamentais. Que vão eles para o beco sórdido e acanalhado que nos destinam. Que bebam a aguardente em copos de três como se fosse chá de malvas, dancem o fandango com os dedos encavalitados nos coletes e o barrete que nos querem enfiar que o ponham no cocuruto das agências. Que cantem à vontade toadas e tabuadas. Contratem militares e forasteiros e outros pantomineiros. Que se vistam de elites de fala grossa, ou professores de economia, duques incompetentes e aristocratas decadentes. Que convoquem toda a canalha para este fado votado.
Abrem-nos as portas dos infernos e nós só temos que dizer não. Não, obrigado, ou obrigada, se quisermos ser educadinhos, ou educadinhas. Contudo, se estivermos sem pachorra para conversas, também podemos apenas abanar a cabeça. Não. Podemos cantar o fado da negação. Não.
Se quisermos ser mais incisivos podemos colocar o braço em ângulo recto e sobrepor o outro braço ali na articulação do cotovelo. Reforça a negativa. O gesto técnico pode ser acompanhado da frase imediata – queres mais faduncho? Toma. A seguir o braço deve anichar-se com força na dita articulação. Tecnicamente é um manguito. E emocionalmente também.
Se quisermos, não obstante os dias que correm, cantar um fado, que cantemos então o dokilas, o mau da fita: e na roda deste fado / nunca se sabe o que se nos depara / que os que ainda andam na mó de cima / têm se saber que a roda não pára / e fatalmente o fim se aproxima/ a vida não pára.
Pois não. Não pára.
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