Olhemos a paisagem deste Portugal tristonho, sem auto estima, apodado pela elite económica nacional e internacional como incompetente. O Portugal incompetente, o Portugal menor, o Portugal ineficaz e desnorteado.
Visto de cima, de um avião, por exemplo, aparecem zonas de ansiedade, outras de incúria, e ainda outras de pilhagem.
E muitas auto-estradas. As célebres auto-estradas portuguesas.
De cima não se consegue escutar o negócio, a parceria, o betão, a traficância, mas tudo está lá imprimido como um texto numa folha de papel.
De cima, ver-se-á ainda o abandono da indústria, e aqueles filamentos, quase imperceptíveis, que andam de um lado para o outro, são pessoas à procura de um improvável emprego, numa fila da segurança social, ou a olhar para ontem com a perplexidade própria de quem não esperava que a fábrica fechasse. Um Portugal praticamente sem indústria.
A fábrica havia sido para a maioria o edifício onde tinha passado a maior parte da vida. Mais que um edifício era uma casa com outras astúcias, sentimentos e procedimentos diferentes dos da sua morada doméstica, mas era uma casa que abrigava, um norte que dava sentido à vida, ainda que a uma vida parca, mas certinha, segura como uma parede mestra que sustentava um habitat. Era um salário.
A vista aérea permitirá ver ainda neste rectângulo magro, os campos e as cidades na azáfama do dia a dia; os campos parecem indiferentes ao que se passa à volta, são manchas verdes na paisagem, sossegam os olhos.
Há muito que os campos são só paisagem; há muito que se sentem imprestáveis, na traição das políticas que os negociaram, negando-lhes a dignidade produtiva, o volume, a ponderação a que tinham direito no mapa económico.
Nas estradas deste friso atlântico, que até há pouco era um país mais ou menos soberano, os carros estiram-se em velocidades privadas, pagas a peso de ouro no devorar dos preços vertiginosos dos combustíveis, e também há comboios com o seu silvo característico a tomar ânimo em cada apeadeiro. Nas cidades propriamente ditas há transportes públicos mal encarados, que acrescentam desconforto à existência. Bancos gastos, cheiros do dia, energias esvaídas num cansaço de muitas horas cumpridas e compridas, trânsitos lentos, fazem do percurso em hora de ponta, com horários esmurrados de incumprimentos, um itinerário estóico na urgência da chegada de cada um ao seu destino.
Nas casas, ao cair da tarde, ouve-se a água a correr para o banho das crianças e sentem-se no ar os vários cheiros dos diferentes jantares que serão comidos nas fracções dos prédios em propriedade horizontal. Um som uníssono de televisão divide-se em telejornal, desenho animado, ou telenovela. Toda a programação passa mensagens subliminares, algumas mais descaradas que outras. Mais tarde, nos canais próprios, serão entornados os vários fluidos do mesmo discurso.
É assim que veremos lá de cima este país em guerra.
Uma guerra de subsistência, uma guerra silenciosa, uma invasão autorizada, uma guerra feita até agora de artigos nos jornais, vozearias e profecias. Vivemos num país em guerra surda. Por enquanto morna.
O sonho napoleónico da Europa banqueira tenta cumprir-se aqui. Exércitos invisíveis entram montados a cavalo na alma dos burocratas dos algarismos.
Acampam ali para os lados dos subúrbios de uma ideologia requentada, carcomida pelo tempo e pelo mau viver.
Sabíamos que estes mesmos exércitos tinham já entrado noutros países.
Só não sabíamos que íamos assistir sentados a isto. Sentadinhos. Caladinhos a ver no écran uma invasão consentida por todos os Pétains colaboracionistas.
Uma invasão feita pela Europa a que pertencemos.
Europa extinta e abandonada. Europa fantasma a aparecer muito de vez em quando. Europabluff, Europa esvaída. O tombo europeu. Sem honra nem glória. Europa sonolenta e lenta, drogada, a estoirar de governos mal eleitos.
Europa trágica e burra que não aprende. Belíssima Europa construída, com fontes e avenidas, mosteiros de retiro e catedrais no coração das urbes. Europa de vitrais e pórticos trabalhados. Europa de luz e sombra. Europa sombria. Europa sonhada, livre e libertada. Europa jurada e traída.
Guerra mansa e cruel. Até quando?
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