“um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo”
António Gedeão, in poema para Galileu
Estes gajos de agora devem odiar o Galileu.
Dava tanto jeito a terra paradinha, sossegada, inerte, imóvel. Se assim fosse até nem se importavam de decretar aquela coisa que se chama democracia. Exactamente, decretar. Não era preciso haver cá eleições e confusões. Decretava-se e pronto. Já estava. Se a terra não girasse, se o mundo se amodorrasse no seu torpor, se cada um e cada uma de nós não pensasse, não agisse, se conformasse com o que veio para ficar, era tudo mais fácil, mais arrumado, mais dócil, e porque não dizê-lo, fraterno. A bem dizer, somos todos irmãos e irmãs.
Galileu desordeiro. A terra parada, o jeito que dava. Deviam ter-te tratado da saúde, Galileu arruaceiro.
Apanhavam os povos uma barrigada de neoliberalismo e nem piavam.
Encontravam os povos por toda a parte clones de Kadafis, de Berlusconis, de Sarkozys, de Merkels, e do outro, do que parece grego mas não é grego, e ficavam-se, sossegaditos, a trabalhar cada vez mais, com mais afinco. Nada de movimentos, manifestações, greves, distúrbios, revoltas, revoluções, tomadas de poder, oposições e outras coisas impróprias que dão cabo da vida à ordem, à ordenação, ao arranjo e sobretudo ao arranjinho dos países. Nada de passeatas manifestantes nas ruas em festa com o adorno da ira e da esperança.
Nada de avisos feitos na rua feiticeira; na rua enfeitiçada por uma energia que dá luz e que alumia a alma pensadora; na rua engalanada pelo feitiço actuante das multidões.
Nada, mas mesmo nada, de olhares que constatam que a força da História está ali, na rua abençoada e potente. Na rua que bebe jasmim e aspira o cravo.
Na rua que se desprende da garra. Rua solar.
Não é que isto ficasse eternamente parado. De vez em quando, muito de vez em quando, não fosse o planeta enferrujar, dava-se à manivela e o globo terrestre girava um bocadinho. Um bocadinho. Chegava.
Depois voltava tudo ao estado inicial. O grande sol guardado no hardware do sistema bancário rodaria de novo em torno da terra, de modo a envolvê-la toda na sua dinâmica potente e financeira. De novo, novas crises estalariam e de novo os povos pagá-las-iam, abúlicos e calados sem mexerem uma palha. Galileu desmancha-prazeres. Empata, pirata, metediço.
Com aquele ar venerável de quem não parte um prato deste cabo disto tudo, linguareiro. Podias estar calado. Mas não, provocador, ainda bufaste, de mansinho, que ela se movia.
Os inquisidores, os grandes e honoráveis juízes e pensadores da tua época, generosos e benevolentes, não te mandaram para a fogueira, e tu, na primeira esquina, a canzear com eles, a desautorizá-los outra vez.
Já viste bem o que fizeste, intriguista?
Disseste que isto tudo tem movimento. Tudo.
Se tudo tem movimento, tudo tem acção. Nada é eterno. Se nada é eterno, tudo muda.
Regimes, sistemas, dominações, ideias, invenções, descobertas, ciências, conhecimentos tidos por perpétuos, comentadores acima de qualquer suspeita, lideranças, opiniões, tudo, tudo muda.
Se assim é, até pode ser que exista futuro. Até pode ser que o que é inevitável, mesmo aquela crónica do sofrimento anunciado, mesmo aquela inevitabilidade da razia, mesmo esta inorgânica ansiedade, tudo, até pode ser que tudo, se ponha em causa numa tarde, numa gota que faça transbordar este cálice, esta aflição, este querer viver, este desejo de metamorfose das vidas.
Esperemos, pois, as borboletas.
Têm-nos amputado coisas de mais e, sobretudo, a possibilidade de futuro. E também, e fundamentalmente, de um presente.
Aos novos, aos velhos e aos assim-assim. Fazem gala no aviso feito à navegação sobre a penúria do tempo que está para vir. Um tempo inevitável.
O que é inevitável? Inevitáveis são os dias a crescer quando a primavera se prepara para chegar. São os bandos de andorinhas que aparecem no seu voo desenhado a tinta-da-china nos céus todos. Inevitáveis são as marés e as fases da lua. É o pano da noite a descer depois de um dia inteirinho de claridade. E mesmo com essas inevitabilidades, vejam bem, nunca se sabe exactamente o que pode acontecer.
Compreendeste isto tudo, velho sábio. O perigo que daqui vem.
Por isso mesmo te devem odiar. O jeito que dava a terra parada.
Se fosse hoje, muitos séculos depois, não te safavas.
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