«O dever da memória», conceito de Primo Levi, está na base da narração destas mulheres portuguesas que acompanharam os maridos militares para Angola, Moçambique e Guiné-Bissau durante a Guerra Colonial. Artigo do portal buala.org
Militar em Angola em 1972, durante a guerra colonial
Margarida Calafate Ribeiro, doutorada em literatura portuguesa e investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, complementa o (único até agora) rosto ficcional desta presença com depoimentos que ajudam a entender «os últimos dias do Portugal colonial, da Guerra que os marcou e das sociedades que daí surgiram».
«Sei que esteve em África. Quer contar?» As testemunhas tornam-se intervenientes nesta questão. É imprescindível a interpretação da Guerra como fenómeno não exclusivamente masculino, e imperioso retirar as mulheres da invisibilidade no espaço de opinião. Saber como esta operou na vida privada de tantas mulheres recém-casadas, ansiosas e solidárias com a situação dos maridos, atentas a outras realidades de uma experiência traumática que, ainda assim, conseguiu trazer-lhes boas recordações. São esposas de militares de carreira e oficiais, que seguiam as «Cartas de Chamada» em longas travessias de barco até chegarem a essas Áfricas onde lhes esperava o papel de apoiantes, ombro de consolo à desmoralização que se abatia nos homens em missão. Transparece uma certa ingenuidade que atravessa: «uma geração que, sem saber porquê, sem questionar, ia», pois vivia-se um tempo de engano, em que as províncias ultramarinas eram Portugal e o patriotismo «um sentimento, que não se explicava nem se justificava».
A autora inspirou-se na análise de Benjamim Stora sobre o impacto da guerra na Argélia na sociedade francesa, no intuito de se considerar a guerra colonial um assunto interno a Portugal e aos países africanos. Neste sentido, livro contribui para encurtar o divórcio entre a dimensão privada e colectiva da memória, já existente «nos tempos da Guerra, entre o discurso público sobre uma guerra silenciada e que oficialmente não existia e o conhecimento privado que dela tinham os portugueses mobilizados e as suas famílias». Se antes do 25 de Abril se fingia que não existia guerra, depois cedeu-se à perplexidade, incapacidade de falar sobre isso. «São coisas de que não se pode falar. Viveram-se na altura e depois não se fala. Por pudor, por horror».
É portanto no registo de revisitação, procura de sentido para aquele período de vida e o complemento da variedade de perspectivas, que estes relatos colaboram na análise psicossociológica de uma das fases mais sombrias do tempo colonial. Porque partiam, voluntariosas, estas mulheres para o desconhecido? A motivação era generosa: coragem e amor, dedicação. Não é comum acompanhar maridos para cenários de guerra, mas o regime incentivava essas idas deixando-as permanecer, porém, como razões privadas. As esposas eram um complemento às tarefas de apoio do Movimento Nacional Feminino, da Cruz Vermelha, à propaganda que impleia as mães a «sacrificar os seus filhos pela Nação». Pois a presença da mulher em África foi uma arma política bem usada e muitíssimo útil: «não deviam mover-se, nem pensar, nem agir», mas «ser a mãe, a irmã, a distracção amorosa, a imagem feminina, boa, a pura gota de água, a imagem também da casa perdida, do país perdido, da família perdida».
Assim, podiam contar, da parte do Estado, com umas quantas regalias: a messe, casa, médico e viagens. Eram apoiadas para ir, em nome da estabilidade, normalização da vida, do amparo ao estado de choque e nervosismo com que os seus homens chegavam das operações. Os homens transfigurados e irreconhecíveis.
Normalmente eram relaçãos precoces, o início da vida conjugal, que antecipava à força do namoro para o estatuto de marido e mulher, na urgência de deixar descendência e alguém que os esperasse. As esposas iam lá ter e fixavam-se em cidades e localidades afastadas dos confrontos, num quotidiano de trabalho (se fosse o caso), costura, espera pelas refeições que vinham da messe ou do hotel, um jogo de crapô, convívio (grande cavaqueira entre mulheres dos militares do quadro ou milicianos), leitura e dedicação ao marido. «Vivíamos uma euforia falsa, entre ataques e regressos do mato e muitas festas», mas era «uma santa vida!».
Muitos depoimentos dão conta do momento emancipatório na vida destas mulheres: saíam de um país conservador para lugares modernizados e multiculturais, com costumes mais brandos, vida social descontraída e maior liberdade, onde entravam com segurança no mercado de trabalho. Ou seja, «África era uma libertação», ou uma expansão, física e mental, uma experiência formativa e humana: «vim de Angola uma mulher mais forte». Também em termos políticos confrontam-se com o engano do Império; algumas mulheres politizadas, até com posições anticoloniais, questionam o regime e o discurso militar do poder. Quase todas falam da iminência da independência, de os povos darem o seu «grito de Ipiranga», mas lamentam a trágica descolonização e a afectação nas vidas de muitos, reconhecendo a evidência de que não teriam «lugar na nova sociedade» que dela saía.
É sabido que as mulheres tiveram mais contacto com a população nativa, através do ensino e da criadagem. Apesar de reconhecerem os privilégios e as desigualdades raciais, o abismo cultural era enorme e a diabolização dos negros continuava a funcionar: «cada vez que olhava para um negro tinha medo, pensava que era um terrorista». Ou enfatizam o tom paternalista em algumas declarações de empatia pelos «pretinhos», que não se desvinculam da visão colonial mais óbvia.
No pós-guerra começou para elas outra guerra: a dos divórcios, culpa, violência doméstica devido a distúrbios mentais dos ex-combatentes não integrados, angustiados, homens em farrapos. Viram-lhes anos de serviço nem sempre reconhecidos, e tantas coisas que as mulheres sofreram na retaguarda.
O livro aborda as várias maneiras de como souberam lidar com essas memórias e as passarem (ou não) aos filhos, para o presente. O anonimato dos depoimentos e o facto de não sermos informados dos seus critérios (se provenientes de entrevistas orais ou escritas) tornam o livro menos completo. Além de que o título África no Feminino pedia igualmente depoimentos das mulheres africanas que contribuíram para os movimentos de libertação. E das milhares de mulheres que ficaram na metrópole, na espera ansiosa do regresso ou dos aerogramas. Mas é um início muito consistente numa longa travessia de memórias por descortinar.
África no Feminino. As Mulheres Portuguesas e a Guerra Colonial
Margarida Calafate Ribeiro
Afrontamento, Porto, 2007
Artigo do portal buala.org
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