domingo, 21 de novembro de 2010

Sahara Ocidental: “Se houver guerra, será total”, diz Ahmed Bujari

Após o desmantelamento do acampamento de El Aaiún pelas forças do exército e policiais marroquinas, jovens saharauis em Tindouf reclamam o regresso às armas. Ahmed Bujari alerta em entrevista para os efeitos imprevisíveis desta crise.
Ahmed Bujari, representante da Frente Polisario junto da ONU
Ahmed Bujari, representante da Frente Polisario junto da ONU
Ahmed Bujari, é representante da Frente Polisario junto da ONU e tem participado em todas as rondas de negociações com as autoridades marroquinas promovidas pelo(s) SG das Nações Unidas.
A entrevista é de Antonio G. González para o levante-emv.com(El Mercantil Valenciano) e a tradução da Associação de Amizade Portugal Sahara Ocidental.
O delegado da Polisario em Madrid alertou sexta-feira passada para o provável regresso às armas, após a resposta vaga da comunidade internacional ante os sangrentos acontecimentos de El Aiún. Seria na realidade o regresso ao conflito armado com Marrocos após vinte anos de interregno. Até onde vai realmente esta advertência?
Tornou pública apenas uma análise concreta da situação, dos factos, e revelou que existe um clamor saharaui para mudar as coisas. E isso pode perfeitamente levar a concluir que a via diplomática se está esgotando.
O cessar-fogo com Marrocos foi declarado em 1991. Serviu para alguma coisa, do ponto de vista da Polisario?
Por um lado, nestes vinte anos fortaleceu-se a identidade e a unidade saharaui. Mas também se verificou que a comunidade internacional não cumpriu com as suas obrigações assumidas na resolução do conflito sobre a última colónia de África registada na agenda da ONU. Isso levanta a questão da coerência do sistema internacional, que mete água um pouco por todo o lado, mas os direitos saharauis estão em relação directa com aqueles que querem os saharauis. Que não haja dúvidas sobre isso.
Tem novos dados sobre o ocorrido com o desalojamento violento do acampamento saharaui perto de El Aaiún? Que informação tem?
As informações vão chegando com muita dificuldade. Mas temos razão em pensar que as coisas chegaram à dimensão de massacre. Por isso solicitamos ao Conselho de Segurança uma investigação sobre os acontecimentos. Mas França e Marrocos, como temem essa investigação, não a tornaram possível [Paris exerceu o seu direito de veto].
Que indícios têm?
Marrocos teve a ousadia de dizer quantas baixas teve, mas não fala das vítimas. E se uma força atacante, que aproveita o factor surpresa e a superioridade, tem um saldo de onze vítimas mortais e dezenas de feridos, é razoável pensar que a força atacada e surpreendida tenha uma lista de baixas cinco vezes superior. Estes são os cálculos. Por outro lado, há factos e indícios de que testemunhas oculares viram 36 cadáveres na morgue do hospital em El Aaiún. E há testemunhas oculares de uma fossa comum onde foram enterrados 16 homens e 19 mulheres. Todos estes indícios reclamam uma investigação. O Governo marroquino deitou por terra todo o esforço de vinte anos para convencer os saharauis de que a sua ocupação [do Sahara] era o paraíso para eles.
Dá a impressão de que o único caminho de manter o conflito na agenda internacional e que não acabe no esquecimento, é a intifada saharaui. Mas está à vista que isso será sangrento?
Os saharauis foram forçados ao caminho mais duro em 1975 quando Espanha nos abandonou. Fomos vítimas, em Fevereiro de 1976, de napalm e de fósforo branco [armas químicas utilizadas já pelos EUA no Vietname]. Centenas de saharauis morreram depois, seiscentos desapareceram, segundo os próprios mediamarroquinos, autoridades militares marroquinas lançavam combatentes saharauis feridos desde helicópteros. Ou seja, temos estado a viver o horror desde 1975. E o que se passou no acampamento de El Aiún é a continuação do horror que exerce uma potência ocupante contra um povo.
Há uma nova geração de saharauis em El Aiún que dizem negar-se a aguentar outros vinte anos de negociações. Tudo aponta para a sua radicalização.
A Polisario pretendia dar toda a prioridade à via diplomática, mas a brutalidade marroquina e a indiferença do Conselho de Segurança, por interferência directa da França, não permitem continuar a acreditar na via diplomática. Por isso, qualquer desenlace é possível. O que é mais difícil é que não há forma de o conter, escapa-se-nos. Daí o enorme erro do Conselho de Segurança ao não acordar uma missão de investigação.
Se se radicaliza a situação, os jovens de El Aiún não se porão à margem, mas podem vocês fazer frente ao muro marroquino?
Se Marrocos força essa saída os termos e os cenários de uma provável guerra serão muito diferentes daqueles que tiveram lugar nos anos setenta e oitenta. E sobre os muros... seriam os primeiros a voar, os muros e onde haja presença militar no Sahara Ocidental. Seria uma guerra total.
É de supor que, para que isso possa acontecer, vocês contam com o apoio da Argélia; de outro modo seria difícil?
Numa guerra total nessa região já não se sabe quantos amigos e quantos inimigos haverá.
Não entendi bem o que disse?
Digo que entraríamos no desconhecido e que isso poderia trazer surpresas agradáveis como desagradáveis...

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