sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Hospital de Cascais: abriu há 8 meses e já faltam camas

Foi o primeiro hospital do SNS a ser concessionado e construído através de uma parceria público-privada, nasceu como “um exemplo de qualidade”. Uma semana depois da inauguração caiu um tecto na sala de espera e agora há doentes em macas nos corredores.
Hospital de Cascais: abriu há 8 meses e já faltam camas
O Primeiro-ministro José Sócrates e a Ministra da Saúde Ana Jorge inauguraram o Hospital de Cascais no início de 2010. Foto de Tiago Petinga, LUSA.
O director clínico do Hospital de Cascais Dr. José de Almeida admitiu esta quarta-feira que há doentes em macas nos corredores do edifício, inaugurado há oito meses, por falta de camas, adiantando que a situação já foi exposta “às pessoas certas”.
Ouvido pela TSF, o médico João Varandas Fernandes tornou público o alerta que já fez à tutela e admitiu o “desgosto” que tem ao ter doentes em macas, algo que é “inevitável, porque a nossa lotação diminuiu”.
“Temos, neste momento, neste novo Hospital de Cascais, menos camas para internamento do que havia no antigo centro hospitalar de Cascais. Estamos no limite. Qualquer alteração ao estado de coisas é o Estado que decide. Só fazemos a gestão”, explicou.
Este clínico lembrou ainda que as instalações que foram postas à disposição são “curtas”, sendo que “apesar de todo o planeamento, temos a capacidade esgotada, mas não é por nossa responsabilidade”.
A gestão privada do hospital justifica-se com o "aumento da procura" nas urgências, na ordem dos 28,4 por cento, e com o alargamento da área de influência. A unidade gerida pela HPP Cascais, do grupo Caixa Geral de Depósitos, cobre o concelho de Cascais e presta cuidados na área materno-infantil a mais oito freguesias do concelho de Sintra.
Já a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo "estranha" as queixas do hospital, até porque está marcada "há duas semanas" uma reunião para esta quinta-feira, em que o assunto será discutido.
Esgotado três meses depois
Segundo o Público, a falta de capacidade de internamento do Hospital de Cascais foi comunicada três meses após a inauguração à ARS. Este organismo revelou que a HPP Cascais propôs, em Maio, a transformação de seis quartos individuais em quartos duplos e o recurso a outras unidades de internamento. Estas soluções foram aceites pela ARS, desde que a transferência de doentes não representasse encargos para o Estado.
A administração do hospital propôs ainda a utilização do serviço de observações para internamento, mas a hipótese foi rejeitada. Ainda assim, a ARS manifestou disponibilidade "para avaliar melhor esta situação" e pediu mais elementos de análise que, segundo diz, na altura não lhe foram enviados.
A primeira PPP, exemplo de problemas e menos qualidade no SNS
A HPP Saúde – Parceria Cascais SA, assumiu, desde o dia 1 de Janeiro de 2009, a gestão do Hospital de Cascais, o primeiro hospital do Serviço Nacional de Saúde a ser concessionado e construído neste regime. O contrato entre a HPP e o Estado chegou a ser alvo de chumbo por parte do Tribunal de Contas (TC). O TC considerou, inclusive, que se verificavam «condições não só menos vantajosas como também mais gravosas» para o Estado.
Desde que a HPP gere o Hospital de Cascais, já se registaram inúmeros episódios lesivos para o interesse público. O Estado já foi obrigado, inclusive, a recorrer a Tribunal Arbitral devido ao custo com medicamentos oncológicos. Posteriormente, foram denunciados procedimentos pouco transparentes no encaminhamento de utentes para outros equipamentos privados que deixaram adivinhar uma promiscuidade entre o sector público e o sector privado.
O recurso ao outsourcing por parte da nova administração veio levantar novas suspeitas sobre a manutenção da qualidade dos serviços prestados e sobre a situação dos profissionais. Desde que abriu, o HPP Cascais já viu sair sete médicos e 29 enfermeiros. Fonte do Sindicato dos Enfermeiros citada pelo Público apresenta como principais queixas a sobrecarga de trabalho, de horários e horas extras que não são pagas.
 

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