quarta-feira, 20 de outubro de 2010

França: mobilização nos liceus bate todos os recordes

Segundo o sindicato do ensino secundário (FIDL), mais de 1.200 liceus mobilizaram-se para a greve e, destes, 850 foram bloqueados.
Jovens participam nas manifestações contra aumento da idade da reforma em França. Foto de Cyberien, Photothèque.
Jovens participam nas manifestações contra aumento da idade da reforma em França. Foto de Cyberien, Photothèque.
As contestações contra o aumento da idade da reforma para os 67 anos, que se vem juntar às inúmeras medidas introduzidas ao longo dos últimos anos, nomeadamente no que concerne à degradação do valor das pensões, continuam a mobilizar milhões de pessoas.
Ainda antes do início das manifestações convocadas pelas sete centrais sindicais (CGT, CFDT, CFTC, CFE-CGC, UNSA, FSU e Solidaires), já existiam vários relatos sobre os efeitos da nona jornada de luta do povo francês contra o aumento da idade da reforma.
No que respeita aos transportes ferroviários, o Le Monde anunciou que 30,4% dos trabalhadores aderiram à greve, o que implica que 60% dos comboios estão paralisados. Já no que respeita à aviação, regista-se a redução de 50% dos voos em Orly e 30% nos restantes aeroportos metropolitanos, sendo que, em Lyon, 112 voos foram cancelados. Em Bordeaux, os trabalhadores chegaram mesmo a bloquear o acesso ao aeroporto. No metro de Paris (Régie Autonome des Transports Parisiens - RATP) a taxa de adesão à greve foi de 9%. Nos transportes rodoviários, mantêm-se os bloqueios e marchas lentas em várias regiões do país.
O Le Monde divulga, também, que, conforme dados fornecidos pela federação dos sindicatos, 25% dos trabalhadores dos serviços postais franceses aderiram à greve.
A produção de energia eléctrica e nuclear também tem sido afectada pelos protestos e, das 12 refinarias do país, 11 estão totalmente paradas, sendo que apenas a refinaria da Exxon, em Fos-sur-mer, perto de Marseille, mantém o funcionamento mínimo. Na refinaria de Frontignan-la-Peyrade, os polícias franceses entraram em confronto com os trabalhadores. Cerca de 2750 estações de serviço não têm combustível.
Mobilização dos estudantes continua a crescer
Segundo o sindicato do ensino secundário (FIDL), mais de 1.200 liceus mobilizaram-se para a greve e, destes, 850 estão bloqueados. Este representa um recorde absoluto face a anteriores jornadas de luta.
O sindicato de estudantes UNEF anunciou ainda que dez universidades foram bloqueadas e o sindicato Snuipp-FSU esclareceu que a greve nas creches e escolas primárias ascendeu a 31%.
Na passada segunda feira a polícia francesa deteve 196 jovens e já existem relatos que apontam para a detenção de mais estudantes durante a jornada de 19 de Outubro. Em Nanterre, a polícia interveio no instituto Jolliot Curie, utilizando gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes.
Manifestações em todo o país
Não obstante ainda não existirem dados definitivos relativamente ao número total de participantes, o Le Monde já divulgou que, em Marseilha, de acordo com os sindicatos, participaram na manifestação 240.000 pessoas, o que representa um novo recorde desde o início do movimento.
A adesão em Toulouse também foi superior àquela registada no passado dia 12. Os organizadores da manifestação apontam para a presença de 155.000 manifestantes.
Amplitude dos protestos inquieta centro-esquerda
A dimensão que as jornadas de luta em França estão a atingir levaram o presidente francês Nicolas Sarkozy a declarar que irá tomar “as medidas necessárias” para pôr fim aos protestos e, nomeadamente, aos bloqueios das refinarias, que têm posto em causa não só os transportes como o funcionamento geral da economia. O representante francês reafirmou que não irá ceder às reivindicações dos manifestantes.
A amplitude alcançada pelo movimento também faz estremecer os cronistas de centro-esquerda. Segundo divulga o Público espanhol, aqueles que outrora apoiavam o movimento popular na esperança de “desgastar o presidente Sarkozy”, como é o caso de Laurent Joffrin, director do Libération, apercebem-se agora que os movimentos escapam do seu controlo e denunciam a existência de “radicais” entre os manifestantes. Joffrin refere-se à “oposição popular hostil a toda a lógica de gestão” e sugere fim dos protestos.

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