quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A fada, os meninos e a escola

Afinal, o segredo do sucesso passa pelo esforço de todos os alunos e pelo empenho das escolas em atingir as “metas”. E tudo será como num perfeito conto de fadas. A fada é a ministra simpática, motivadora e optimista.
entrevista da Ministra da Educação ao jornal Público (parte disponível aqui) e a sua mensagem vídeode início de ano lectivo dirigida aos alunos e às famílias (imperdível) nunca passariam despercebidas, mais não fosse pela tragicomédia que transpiram.
Na entrevista, a ministra apresenta as “metas de aprendizagem” como a grande estratégia para combater o insucesso escolar. A ideia parece ser mais ou menos esta: as escolas devem escalonar e aferir determinados conhecimentos essenciais que os alunos devem possuir no final do ano, cruzando depois esses dados com as notas nas provas de aferição e com o número de chumbos. Assim, as escolas vão empenhar-se em que todos os alunos atinjam as metas e isso reflectir-se-á na diminuição dos chumbos. Tudo fácil.
Quando as jornalistas tentam levar o assunto para a falta de recursos das escolas para garantirem uma aprendizagem universal e satisfatória, a senhora ministra assobia para o lado. Pior, diz preto no branco: as escolas têm todas as condições!
Há aqui uma espécie de tendência irresistível para negar a realidade: este tipo de técnica mediática (vociferada até ao tutano por este governo) cansa e cansa muito: repetir tantas vezes a mentira para criar uma espécie de jogo de luzes e sombras, em que o que parece óbvio se transforma em impossível e vice-versa. É assim que a ministra pode transmitir a ideia, sem qualquer tipo de reserva mental, de que é a mesma coisa uma turma com 28 alunos ou uma turma com 22 alunos. Pior: segundo a última propaganda do governo as turmas mais pequenas podem mesmo originar mais insucesso escolar. A proposta de redução do número máximo de alunos por turma é discutida esta sexta-feira no parlamento, através de uma petição que recolheu mais de 18 mil assinaturas em apenas um mês. O relatórioda Comissão de Educação mostra bem como a Ministra fala contra quase todo o mundo, sem sequer se mostrar preocupada, até porque basta confiar nos aliados do costume para impedir a aprovação desta medida.
Mas voltemos à entrevista. De facto, dá a sensação que o encerramento de escolas e a constituição de mega-agrupamentos – apesar de a ministra negar, em mais um excelente malabarismo de linguagem, que eles sejam maiores que os anteriores - parecem ter sido apenas a concretização de excelentes ideias que já vinham de trás. O que é novo são as “metas”. As “metas” são a pólvora descoberta. As “metas”.
Revisão curricular quando alunos de 13 anos têm 13 disciplinas? Não é prioritário. Mais professores de Ensino Especial? Não é necessário. Turmas menos grandes? É até desaconselhável. Mais professores nos quadros e menos precariedade? Depende do Ministério das Finanças. Mais Acção Social Escolar? Fiquemo-nos pelos aumentos ridículos de 50 cêntimos. E pelas “metas”.
Nada disto surpreende numa ministra que assegura ser normal a existência de um psicólogo por dois mil alunos nas escolas portuguesas. Sim, absolutamente normal. Talvez a escola nem precise deles. É que com a psicologia de algibeira de Isabel Alçada, que se dirige aos alunos num vídeo patético afirmando banalidades como “estudar é um desporto do cérebro” e “se cada um dos alunos estiver concentrado na aula, se estiver com atenção, se realizar os seus trabalhos, se conseguir ler e escrever bem, aprender os assuntos que vêm nos livros, ou seja, se seguir as orientações dos senhores professores, conseguirá obter resultados”, dizia eu, com esta faculdade motivacional na era das novas tecnologias, para quê mais psicólogos nas escolas? De facto, enquanto o Ministério das Finanças não permitir a contratação de um Scolari para cada sala de aula, resta-nos a barganha da senhora ministra. “Vamos meninos!”.

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