quarta-feira, 25 de agosto de 2010

“Os responsáveis por esta crise são precisamente aqueles que nunca tiveram dificuldades”

Ferragudo recebeu o comício do Bloco, numa noite ventosa e com a praça Rainha D. Leonor cheia, onde se criticou o "tango" dançado pelos partidos do bloco central e se reflectiu sobre quem, em Portugal, vive acima das suas possibilidades e quem vive abaixo das suas necessidades.
As intervenções foram iniciadas com Jorge Ramos, coordenador do Bloco de Esquerda de Lagoa que após um breve retrato da situação politica nacional se referiu aos números do desemprego na região do Algarve - 30 mil desempregados –, ao fecho eminente da maternidade do Hospital de Portimão devido à falta de profissionais de obstetrícia, da degradação da qualidade do ensino no concelho de Lagoa (onde, no próximo ano lectivo, existirão turmas com 29 alunos).
Jorge Ramos aproveitou para prestar contas do trabalho do Bloco na autarquia, sublinhando a proposta do Bloco que foi aprovada, a instalação de uma rede de oleões, agora em implementação, e referindo outras que foram rejeitadas como um voto de protesto contra a aplicação de portagens na Via do Infante que “já não tem na Nacional 125 uma alternativa viável”.
Seguiu-se o deputado Pedro Filipe Soares que começou por ironizar com o vento que se fazia sentir nesta noite, desejando que fossem ventos de mudança. O deputado seguiu dando razão a José Sócrates quando este disse que Passos Coelho era o parceiro perfeito para o tango "porque o tango é mesmo assim, ora nos abraçamos, ora estamos zangados ora nos aproximamos, ora nos empurramos, mas acaba sempre de mão dada. E é precisamente a isso que assistimos nesta ‘silly season’”.
“A seguir vêm os apertos de cinto a que o Governo nos obriga, sendo estes sempre só para alguns ", disse Pedro Filipe Soares, exemplificando com António Mexia, ex-secretário de estado de Cavaco e ex-ministro de Durão Barroso geriu os seus conhecimentos e acabou à frente da EDP, e que atribuiu a si próprio, no ano passado, 3,1 milhões de Euros – “o equivalente a 290 anos de salário, para um português de salário médio”. O deputado lembrou ainda os lucros da EDP, 1024 Milhões de Euros, que, afirmou, “saíram directamente do bolso dos portugueses”, que apesar de serem dos mais pobres da Europa são os que pagam a electricidade mais cara.
O deputado José de Gusmão fechou as intervenções, convidando os presentes a fazer um balanço deste Verão e desta versão “ligeiramente diferente a que temos assistido” das políticas comuns. Referindo-se à proposta de revisão constitucional do PSD, afirmou que esta se resume a liberalizar os despedimentos e a retirar da constituição o princípio da universalidade e gratuitidade da saúde e da educação, “dando uma oportunidade a Sócrates de se arrogar um paladino da defesa do Sistema Nacional de Saúde (SNS)”, explicou ainda.
"Portugal tem, segundo a Organização Mundial de Saúde, o 10.º SNS mais evoluído do mundo, muito à frente de países bem mais ricos como é o caso dos Estados Unidos da América. E é por isso que o Bloco tem com o SNS um compromisso inquebrantável", afirmou José Gusmão, recordando que José Sócrates entregou à gestão privada quatro hospitais dos mais importantes. “Sócrates não tem credibilidade para falar na defesa do SNS", rematou.
Ao retomar o mote dado por Pedro Filipe Soares relembrou que este tango de arrufos entre PS e PSD resultou na aprovação do Orçamento de Estado, dos aumentos de impostos, do PEC1 e PEC2. 
“Agora temos 10% de desemprego, num país em que todos os dias temos alguém a dizer ‘os portugueses vivem acima das suas possibilidades’. Mas que portugueses são estes?”, perguntou José Gusmão. “A nós parece-nos que a generalidade dos portugueses vive é abaixo das suas necessidades", respondeu, referindo que os portugueses são dos que têm os salários mais baixos da Europa, a generalidade dos jovens a trabalhar na completa precariedade dos recibos verdes, e pensões de miséria para a maioria dos idosos.
José Gusmão deixou ainda algumas propostas concretas, como a criação de um programa nacional de reabilitação urbana, no qual o estado apoia as autarquias para reabilitar os centros históricos devolutos, reavendo depois o seu dinheiro através do aluguer destes fogos antes de serem devolvidos aos seus proprietários.
“A reabilitação urbana tem várias vantagens em relação à construção nova, praticamente não tem impactos ambientais e é uma actividade que requer mais intensamente mão de obra e mão de obra mais qualificada”, explicou o deputado, referindo que também é preciso investir a sério no aproveitamento das energias renováveis, “pois estamos incompreensivelmente muito atrás dos nosso parceiros europeus”, sendo que Portugal tem uma das maiores linhas de costa na Europa e é o país da UE com maior exposição solar. 
Contudo, “é necessário apoiar os mais desfavorecidos e vulneráveis”, sublinhou o deputado, afirmando que é “verdadeiramente aí que se vê o desenvolvimento de uma sociedade”, e sobretudo porque “os responsáveis por esta crise são precisamente aqueles que nunca tiveram dificuldades”.

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