Já estive em muito campo de futebol em toda a minha vida, mas nunca tinha visto uma arena desportiva que fizesse cortar a respiração como o Moses Mabhida Stadium em Durban, África do Sul. Depois de fazer uma visita privada à maravilha de 457 milhões de dólares, fiquei completamente estupefacto, tanto no bom como no mau sentido.
O estádio, cujo nome se deve ao último dirigente do Partido Comunista Sul-africano, é uma obra de arte estilizada. O complexo em branco casca de ovo é visível a quilómetros de distância, elevando-se da Terra em nuvens de leite que contrastam de forma abrupta com o ambiente urbano e poeirento que o rodeia. O tecto aberto tem um arco gracioso e suave que liga um lado ao outro do estádio. Só o arco em si é uma maravilha: começa como uma curva clara, e depois divide-se, separando-se em duas extensões de branco.
Isto é uma homenagem à bandeira Sul-africana do pós-apartheid, com as riscas querendo simbolizar, de acordo com o que diz no sítio Web do governo, "a convergência de diversos elementos dentro da sociedade Sul-africana, levando o caminho pela frente em unidade." Os viciados em adrenalina até podem subir ao topo do arco e fazer "bungee-swing" sobre o campo.
Num dos lados do estádio, por detrás da baliza, existe uma abertura panorâmica, do feitio de um gigantesco quadrado chamado "janela sobre Durban", e, realmente, a linha do horizonte de Durban faz de cenário ao estádio através desta "janela". Mas a verdadeira façanha de engenharia do Estádio Moses Mabhida são as bancadas. Estas erguem-se em ângulo com tal subtileza que o efeito é o de um prato e não de uma tigela.
Cada um dos 74 mil lugares sentados tem uma perspectiva perfeita da linha de acção, quer se esteja nos lugares do topo ou nos camarotes. Os assentos propriamente ditos estão pintados em cores vivas: os do primeiro nível são em azul forte que representa o oceano, os do meio são verdes que significa a terra e os do topo são castanhos para que, de acordo com o que me disse um repórter desportivo, "na televisão pareça que o estádio está cheio."
No entanto, a cor mais marcante do estádio não está nas bancadas. Está no relvado. A relva é de um verde tão brilhante que até fere a vista. Cada folhinha de relva parece ter sido meticulosamente colorida com um marcador mágico. Isto foi criado com a ajuda de litros de água quase sem conta, irrigando constantemente o campo, conforme eu próprio pude testemunhar.
* * *
Levantei a questão da beleza incomparável do estádio porque os políticos sul-africanos apoiantes do Campeonato Mundial de Futebol acusam os detractores daquilo que eles chamam de "Afro pessimismo." Alegam que os críticos não acreditam que a África do Sul tenha capacidade para receber um evento desta magnitude. Isto é um disparate. Ninguém duvida que a África do Sul o consiga fazer. O problema é como o governo e a FIFA estão a executar os seus planos nefastos.
A África do Sul é um país onde a riqueza e a pobreza extremas já convivem lado a lado. O Campeonato Mundial, longe de ajudar esta situação, ainda evidencia mais cada uma das manchas desta nação pós-apartheid.
Ver uma nação já dotada de estádios perfeitamente utilizáveis gastar quase 6 mil milhões de dólares em novos complexos, é verificar um inconcebível esbanjar de recursos.
Ver litros e litros de água desperdiçados num campo de futebol, num país onde a falta de acesso à água potável tem originado protestos em todas os distritos, é reconhecer uma negligência irresponsável pelas necessidades do povo. Como disse ao New York Times Simon Magagula, que vive numa casa de barro perto de um dos novos estádios: "Prometeram-nos uma vida melhor, mas vejam como vivemos. Se deitarem água num copo, vão ver coisas moverem-se lá dentro."
Ver uma maravilha arquitectónica como o Moses Mabhida Stadium num país onde o acesso a um abrigo limpo e acessível é um sonho impossível para tantos, é testemunhar os interesses do governo a colidirem com os interesses do povo que o elegeu.
E ver um estádio cujo nome foi dado em memória de Moses Mabhida, que simboliza as lutas contra a pobreza para milhões de sul-africanos, é contemplar a ironia na sua forma mais lúgubre.
À medida que o preço e as exigências feitas pela FIFA se vão tornando mais onerosos, muitos estão agora a reconsiderar. O correspondente desportivo do Canal E da Televisão Sul-africana, Zayn Nabbi, que me fez uma visita guiada pelo estádio, olhou à volta e disse:
Estruturalmente, o Moses Mabhida Stadium é brilhante. A nível mundial. Contudo, quando pensamos quanto custou, num país com tanto serviço público defeituoso, é difícil acharmos que isto esteja certo. Há áreas com necessidade desesperada de financiamento. Estamos todos tão embrenhados neste romance para ganhar o Campeonato do Mundo - o romance dos romances - que ou não alcançamos ou não fomos informados das repercussões. Deixamo-nos todos levar pelo entusiasmo. Claro que eu também me coloco nesta categoria. Homem, quando tudo isto terminar, a ressaca vai ser brutal.
Esta pode ser uma daquelas ocasiões em que a ressaca começa ainda antes de a festa acabar. As organizações distritais já foram chamadas a protestar durante o Campeonato Mundial se não forem alcançadas as exigências para os serviços públicos básicos. É o que acontece quando a água para o relvado é limpa mas os poços de água para beber - em conjunto com as políticas da FIFA - estão completamente imundos.
21 de Abril de 2010
Publicado primeiro em The Progressive
Dave Zirin é o autor de A People's History of Sports in the United States e duas colecções dos seus artigos desportivos, Welcome to the Terrordome: The Pain, Politics and Promise of Sports and What's my name, Fool? Sports and Resistance in the United States. É um colunista no TheNation.com; os seus artigos também se encontram disponíveis no seu sítio Web Edge of Sports.
Tradução do Socialist Worker por Noémia Pontes de Olive
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