De acordo com as contas do ministério, por exemplo, um desempregado solteiro sem filhos e um salário bruto de 1040 euros, que hoje tem direito a um subsídio de 676 euros terá um corte de 37 euros no subsídio. Por outro lado, as novas regras impõem que se aceite um salário precário mais baixo, o que determina que, numa eventual repetição da situação de desemprego, o trabalhador seja ainda menos apoiado na sua situação.
As alterações, desenhadas sob a influência do Plano de Estabilidade e Crescimento, aplicam-se apenas aos novos desempregados, mas o Executivo não estudou o impacto desta medida quer no mercado de trabalho quer ao nível da despesa. E a sede do Governo em poupar nas prestações sociais não fica por aqui. Somam-se, no mesmo decreto-lei, as novas regras de atribuição do Rendimento Social de Inserção e a conta chega aos 130 milhões de euros de "poupança" já em 2010.
O Bloco vai requerer que este diploma seja sujeito a debate na Assembleia da República. São alterações tão graves que não podem ser aprovadas por mero decreto. O Parlamento tem de discutir estas regras e as várias forças políticas têm de clarificar a sua posição sobre a matéria.
Subjacente às novas regras apresentadas, há um juízo anti-social e demagógico feito sobre os desempregados e beneficiários de prestações sociais, que o Governo do PS, em concílio com a nova liderança do PSD, se tem esforçado por passar para a opinião pública, nos últimos tempos: são estes, os que o Governo quer que sejam ser vistos como "abusadores" do actual sistema, que têm de ser sacrificados perante a crise.
O Bloco repudia esta mensagem e a não pode deixar de denunciar a perversidade do raciocínio do Governo.
O subsídio de desemprego é um direito de que são titulares os homens e mulheres que descontaram ao longo de anos de trabalho, não é uma prestação que possa ser objecto de corte cego e arbitrário.
Diz o Executivo que as novas regras do subsídio de desemprego servem para "fomentar o rápido regresso dos desempregados ao mercado de trabalho". Se assim fosse, com o sucessivo agravamento nas regras de atribuição do subsídio de desemprego, não teríamos assistido já a um abrandamento no crescimento ou até decréscimo do número de desempregados? E os 200 mil desempregados que permanecem hoje sem qualquer apoio social, e sem trabalho? Achará porventura o Governo que será um certo masoquismo a explicar a sua condição? É certo que não. Quem quer passar essa ideia é irresponsável. O que assistimos é a um beco sem saída que mantém milhares de homens e mulheres nesta situação de luta diária pela sobrevivência, sem qualquer tipo de ajuda.
Nesta obsessão pelo controlo das prestações sociais tem valido tudo, e o descontrolo do Governo é evidente. Na passada sexta-feira, a ministra Helena André anunciou que os beneficiários de subsídio social de desemprego, rendimento social de inserção e de outros apoios ligados à parentalidade vão ter de apresentar extractos das suas contas bancárias, para poderem ter acesso àquelas prestações.
De acordo com a ministra, todos os pensionistas estão também sujeitos à verificação de condição de recursos para ter acesso às pensões, ou seja, terão de mostrar os seus extractos bancários para aceder às prestações. "As pensões sociais passarão também a contar para a avaliação da condição de recursos", referiu Helena André, na ocasião.
No final do dia uma nota do Ministério do Trabalho desmentiu a ministra, referindo que afinal não serão feitas consultas de extractos bancários dos pensionistas, mas o que parece evidente é que Governo mantém a sua determinação em criar novos obstáculos no acesso às pensões, que são um direito dos beneficiários, e não um favor do Estado, criando todo o tipo de expedientes.
Instituindo esta lógica de suspeição e uma estratégia de "caça" aos desempregados e pensionistas, o Governo não faz outra coisa que sentenciá-los à precariedade e à miséria.
Catarina Oliveira
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