quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Portugal é o terceiro país mais pobre da Zona Euro


Em 2011, Portugal registou o terceiro Produto Interno Bruto (PIB) expresso em paridade do poder de compra mais reduzido entre os 17 países da Zona Euro. No âmbito da União Europeia (UE) a 27, em Portugal os cidadãos ganhavam menos 22,6% do que nos restantes países da UE.
Foto de Paulete Matos.
"Em 2011 o Produto Interno Bruto per capita em Portugal, expresso em Paridades de Poder de Compra (PPC), situou-se em 77,4% da média da União Europeia, o que representa uma redução em 2,9 pontos percentuais deste indicador face ao ano anterior”, avança o Destaque publicado pelo INE.
Esta é a maior queda desde, pelo menos, 1996, e representa a percentagem mais baixa registada nesse período, igualando apenas o observado em 2004.
Portugal encontra-se em nono lugar no ranking dos países mais pobres da Europa, sendo apenas superado pela Eslováquia, Estónia, Lituânia, Hungria, Polónia, Letónia, Roménia e Bulgária.
Já no que respeita à Zona Euro, Portugal é o terceiro país mais pobre. Estónia e Eslováquia ocupam o primeiro e segundo lugar, respetivamente.
Luxemburgo apresenta o maior nível de riqueza por habitante, equivalente a 271% da média da UE, seguindo-se a Holanda (131%).
No que concerne à Despesa de Consumo Individual (DCI) per capita, que “constitui uma medida dos bens e serviços consumidos pelas famílias independentemente da sua aquisição ser ou não efetuada por elas”, medido em Paridades de Poder de Compra, Portugal registou, em 2011, um valor equivalente a 81% da média europeia, menos três pontos que os 84% de 2010.
O Luxemburgo tem o maior índice de DCI, equivalente a 140% da média. A Alemanha surge com 120%, Itália com 101% e Espanha com 94%.

Associação de Reformados entrega petição contra OE'2013


A Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados (APRE!) entregou esta quinta feira, no Parlamento, uma petição com 13 mil assinaturas contra o Orçamento do Estado para 2013 (OE'2013), na qual apela ao Presidente da República para que peça a fiscalização preventiva do mesmo.
Foto de Paulete Matos.
Os cidadãos aposentados não são 'gorduras do Estado'. Não são sequer 'despesa' que o governo teria de cortar para não sobrecarregar, ainda mais, os impostos dos portugueses que trabalham. É o Estado que está em dívida para com os aposentados que lhe confiaram, durante a sua vida ativa, com as suas quotizações mensais, as receitas destinadas ao pagamento das suas pensões de aposentação”, refere a APRE! no documento.
A Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados, criada em outubro, adianta ainda que “compete ao governo, no exercício das suas competências administrativas, tomar as providências necessárias ao respeito por este contrato legal do Estado com os aposentados”.
“Mas o governo, em vez disso, pretende confiscar novamente parte das pensões que lhes são devidas”, avança a associação, esclarecendo que, por isso, “se vem pedir uma intervenção qualificada, nos termos abaixo indicados, do Presidente da República que, no seu ato de posse, jurou 'defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa'”.
Maria do Rosário Gama, coordenadora do movimento, assinalou, esta quinta feira, em declarações aos jornalistas, que as 13 mil assinaturas da petição foram recolhidas apenas no espaço de um mês.
"Pretendemos sensibilizar os deputados para que peçam a fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado para 2013 e ainda esta tarde vamos ser recebidos pelo Presidente da República, Cavaco Silva, a quem pediremos para que recorra junto do Tribunal Constitucional à fiscalização preventiva do Orçamento", afirmou.
"Consideramos que estamos a ser alvo de um saque. Não vamos só pagar os impostos e as taxas relativamente ao que as pessoas no ativo vão pagar, mas, para além disso, teremos ainda de pagar uma contribuição que hipocritamente se chama de solidariedade", lamentou a ex diretora da Escola Infanta Dona Maria de Coimbra.
"Tivemos uma carreira contributiva muito longa - algumas pessoas ultrapassaram mesmo os 40 anos -, fizemos os planos de vida em função da pensão atribuída, muitos de nós temos os filhos desempregados e temos pais a cargo. Por isso, este saque vem perturbar gravemente a vida das pessoas. Em particular, os reformados estão a ser discriminados em relação aos outros cidadãos", sustentou ainda Maria do Rosário Gama.

 


 

Grécia: um em cada cinco sem abrigo tem um curso superior


"O perfil dos novos sem-abrigo mudou radicalmente”, alerta a Organização Não Governamental grega Klimaka. Quase dois terços (65%) são “novos sem abrigo”, a viver na rua há dois anos ou menos, e um em cada cinco frequentou um curso universitário.
Foto de Paulete Matos.
Um estudo promovido pela Organização Não Governamental (ONG) Klimaka, estabelecida em Atenas, revela que a maior parte dos sem abrigo na Grécia trabalhava em profissões que foram particularmente atingidas pela crise: 24,8% tinham profissões técnicas no setor da construção, 22% eram trabalhadores do setor privado, 18% eram trabalhadores independentes e 16% trabalhavam no setor do turismo.
O documento, divulgado esta quarta feira, aponta ainda que um em cada cinco (20%) sem abrigo completou uma licenciatura. Já no que respeita ao escalão etário, 61% tem idade entre 41 e 55 anos e 21% entre 26 e 40 (21%).
“O perfil dos novos sem-abrigo mudou radicalmente. Antes da crise, a maioria era pessoas com problemas mentais ou de abuso de álcool e drogas”, explicou Olga Theodorikaku, representante da Klimaka, que é citada pela Efe.
A grande maioria dos sem abrigo (64,8%) começou a viver nas ruas há menos de dois anos, ou seja, após a implementação do primeiro pacote de austeridade imposto pela troika, em fevereiro de 2010.
Mais de metade “reside” no centro histórico de Atenas e sobrevive com um orçamento que varia entre 0 e 20 euros mensais.
Ainda que a grande maioria dos sem abrigo tenha esperança que a sua situação possa reverter-se, 18% já tentou suicidar-se, pelo menos, uma vez.
Questionados sobre por que razão se tornaram sem abrigo, 29,8% respondeu que a sua situação resultou de “problemas financeiros” e 17,3% apontou o desemprego como a origem dos seus problemas. Já no que respeita a quem atribuem responsabilidade pela sua situação, quase metade (47,6%) respondeu “os políticos”. 71% dos sem abrigo defende que o Estado deveria ter um papel ativo no que respeita a evitar que os cidadãos sejam privados dos seus direitos mais elementares, tal como acontece com os sem abrigo.
Segundo Theodorikaku, estes cidadãos, muitos deles com sérios problemas de saúde, estão “completamente excluídos do sistema de saúde pública”.
De acordo com a Klimaka, estima-se que existam, atualmente, mais de 20 mil sem abrigo na Grécia.
Portugal: Austeridade aumenta número de sem abrigo
Em março, o coordenador das equipas de ruas da Comunidade Vida e Paz, alertou que são cada vez mais os portugueses a solicitar ajuda às instituições que trabalham com a população sem-abrigo.
“No contato diário de rua nós sentimos que há de facto uma alteração do problema apresentado”, frisou Celestino Cunha, adiantando que antes os problemas relacionavam-se com dependências ou doença mental, sendo que neste momento o desemprego assume uma “relevância importante”.
Também o diretor executivo da CAIS, defendeu, em abril, que a crise económica e social está a alterar o perfil do sem abrigo em Portugal, atingindo “cada vez mais pessoas novas, mais mulheres, com algumas qualificações”.

Militares do sul da Europa apresentam manifesto contra a austeridade


Associações de militares de Portugal, Itália, Grécia e Chipre, membros do Fórum Mediterrâneo de Associações Militares (FMMA), apresentaram esta quarta feira um manifesto contra "esta escalada de cortes em toda a Europa que está a minar a dignidade das famílias e as condições de vida".
Manifestação de militares em Lisboa - Foto de Mário Cruz/Lusa
Neste manifesto, os membros do FMMA, organização criada há cinco anos no seio da associação de militares europeus Euromil, criticam a "grande regressão de direitos fundamentais" e sublinham que "as decisões tomadas pelos governos dos nossos países têm um grande impacto na vida social e familiar dos militares" e estão a afetar os seus "valores profissionais".
Os militares referem ser duplamente discriminados, estando sujeitos, por um lado, a cortes salariais, e dos seus direitos fundamentais, superiores aos dos restantes cidadãos, a que acresce a discriminação de que já padeciam em matéria de direito de associação e reivindicação.
"Como cidadãos de uniforme", solidarizam-se com os seus compatriotas que também estão a ser alvo de "severos" cortes, sublinhando que se posicionam, não em frente, mas a seu lado.
As associações signatárias deste documento anunciam ainda que irão prosseguir com "quantas acções legais" sejam "necessárias para não continuar com este crescente sofrimento".
O manifesto do FMMA, que foi posteriormente entregue na residência oficial do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, foi apresentado na sede da Associação Unificada de Militares Espanhóis (AUME), em Madrid. Na iniciativa estiveram presentes, entre outros, os representantes da Associação Nacional de Sargentos, Lima Coelho, e da Associação de Praças, Luís Reis, de Portugal, e representantes da Assodipro e da Associação de Carabineros 'Pastrengo', de Itália.
O documento será também enviado aos presidentes da República de Portugal e de Chipre, ao primeiro-ministro grego e ao presidente do conselho de ministros italiano.

Alex Tsipras apela a uma conferência europeia sobre a dívida


Alex Tsipras, dirigente do Syriza, afirma que a única solução viável para a crise da dívida é um «haircut para a Grécia e toda a periferia sul» e apela à realização de uma conferência europeia sobre a dívida. Artigo publicado em IAC.
Foto retirada do facebook de Alex Tsipras.
Passadas poucas semanas do anúncio do terceiro (em três anos) plano da UE e do FMI para salvar a Grécia da bancarrota, o partido mais popular do país (que representa a oposição radical de esquerda) apelou à realização de uma conferência europeia sobre a dívida. O objetivo é encontrar «finalmente» uma solução para a crise, que, para o Syriza, está longe de estar a ser resolvida.
Numa entrevista em exclusivo, Alexis Tsipras, cujo partido se opõe frontalmente à austeridade, insistiu que, perante a expansão do drama da dívida, os credores estrangeiros não têm outro remédio senão consultar os livros de história, de modo a lidar com a periferia sul, arrasada pela crise, com os mesmos mecanismos utilizados para com a Alemanha no rescaldo da Segunda Guerra Mundial.
«É absolutamente claro que o último acordo não passa de um compromisso que vai limitar-se a perpetuar a incerteza… A Merkel tem de dizer ao seu eleitorado antes das eleições [alemãs de 2013] que o programa não está a funcionar», disse Tsipras ao Guardian.
«A única solução viável é um haircuti, não apenas para a Grécia, mas para toda a periferia sul», acrescentou, enfatizando que, quanto mais os credores adiarem anular uma porção substancial da dívida colossal de Atenas, maior será o preço social e económico a pagar.
«É por isso que propomos uma conferência nos mesmos moldes da realizada em Londres em 1953, que aliviou a Alemanha de cerca de 60 por cento da sua dívida. Queremos chegar a um acordo com os nossos credores para uma solução credível. Não importa o local, mas deve acontecer o mais rapidamente possível.»
Como era um dos Aliados, a Grécia, ironicamente, participou na conferência de 53, cujo acordo relativamente à dívida viria, mais tarde, a lançar os alicerces do milagre económico alemão do pós-guerra. O pacto permitiu ao país destruído de Hitler estender o pagamento ao longo de um período de trinta anos, e estipulou ainda que o cumprimento das obrigações financeiras ficaria dependente do desempenho económico.
Para que a economia destroçada da Grécia venha alguma vez a recuperar, é crucial, na opinião de Tsipras, que o país beneficie igualmente de uma «cláusula de crescimento», que vincule também o reembolso da dívida à capacidade para pagá-la. «O que pedimos é tempo, uma moratória ao serviço da dívida para podermos aplicar esse dinheiro em políticas de crescimento», disse, acrescentando que a suspensão do pagamento dos juros, que se prevê que atinjam a quantia de cerca de treze mil milhões de euros por ano, seria o primeiro passo para relançar a moribunda economia grega. «Seria uma solução vantajosa para todos».
O carismático dirigente, que saltou para a ribalta quando o seu partido aumentou cinco vezes o número de votos nas últimas eleições, defendeu ainda que a estratégia gradual dos credores para resolver a crise levará à destruição não apenas da Grécia, mas de todo o continente.
«O problema económico da Europa assenta em dois pilares. O primeiro é a dívida, que tem de se tornar viável, e o segundo é a austeridade, que tem de acabar. Se continuarmos com este tipo de medidas, é como apagar o fogo com gasolina», afirmou.
As políticas económicas de Tsipras têm sido repetidamente ridicularizadas pelo primeiro-ministro Antonis Samaras, que as apelida de «perigosas e fantasiosas». Mas a realidade tem dado razão ao esquerdista de 38 anos: a via da austeridade na Grécia, em nome de um ajustamento fiscal brutal, criou níveis sem precedentes de pobreza e desemprego, afundou a economia numa recessão, e tem-se traduzido em objetivos orçamentais repetidamente falhados, que arrastam o país para uma espiral de morte cada vez mais profunda. E criou poços sem fundo no sul da Europa, que os contribuintes do norte foram depois chamados a financiar.
Embora o último resgate inclua um complexo esquema de recompra de títulos, que irá aliviar em cerca de 30 mil milhões de euros a dívida de 340,6 mil milhões do país, tal não passa, segundo Tsipras, de uma maneira de os credores «comprarem tempo», e está, por isso, longe de ser uma solução adequada.
«Quando a crise começou, em 2009, a nossa dívida correspondia a 120 por cento do PIB. Este ano, as projeções oficiais indicam que vai ser de 175,6 por cento. E agora vêm dizer-nos [a UE e o FMI] que, para tornar a dívida sustentável, temos de atingir 124 por cento do PIB em 2020», diz, acenando a cabeça, incrédulo.
«Vamos supor que até podem ter razão — mas como é que querem que cheguemos lá? Após doze anos de austeridade e medidas catastróficas, com cortes no valor de dezanove mil milhões de euros, a Grécia será uma terra de ninguém.»

Helena Smith | The Guardian | 9 de Dezembro de 2012
Tradução de Mariana Avelãs e Revisão de Helena Romão
Ler original aqui:

 


 

i O «haircut», que numa tradução literal corresponde a «corte de cabelo», traduz a perda que um investidor está na iminência de suportar num determinado activo. A dimensão do «haircut» reflecte a percepção de risco associada ao activo. Por exemplo, o «haircut» que foi negociado com os bancos e entidades financeiras privadas que compraram títulos de dívida da Grécia foi de 50%. O objectivo é criar melhores condições para que o remanescente da dívida possa ser efectivamente ressarcido.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Nunca houve tanto crédito malparado: 15.700 milhões de euros


Em Portugal, o crédito de cobrança duvidosa continua a disparar e a bater recordes. No final de outubro de 2012, o crédito malparado dos particulares ultrapassou os 5.000 milhões de euros e o das empresas é já superior a 10.000 milhões de euros.
No final de outubro de 2012, o crédito malparado atingia 15.700 milhões de euros, cerca de 6,5% do total do crédito concedido - Foto de Paulte Matos
No final de outubro de 2012, o crédito malparado atingia 15.700 milhões de euros, cerca de 6,5% do total do crédito concedido, segundo os dados do Banco de Portugal, divulgados nesta segunda feira.
Num ano, a subida do crédito malparado foi de 33%, pois no final de outubro de 2011, o montante era de 11.837 milhões, 4,6% do total concedido.
O crédito malparado das empresas voltou a subir no mês de outubro, atingindo 10.684 milhões de euros, 9,97% do total do crédito concedido às empresas.
Quanto aos empréstimos a particulares, o malparado atingiu 5.031 milhões de euros, 3,73% do total de 134.915 milhões de euros de empréstimos concedidos. Dos 5.031 milhões de cobrança duvidosa, 2.229 milhões eram de crédito à habitação e 1.539 milhões de crédito ao consumo.
O malparado no crédito ao consumo representava 11,4% do concedido e nos empréstimos para habitação 2,02%.
Mais de metade do crédito malparado das empresas provém dos setores da construção, comércio e reparação automóvel. Nestes setores o malparado atinge 5,5 mil milhões de euros.

Um mundo mais quente é um mundo com fome


Os preços dos alimentos dispararão e centenas de milhares de pessoas morrerão de fome se não se agir com urgência para concretizar reduções importantes nas emissões derivadas da queima de combustíveis fósseis. Por Stephen Leahy, da IPS
Lidy Nacpil, da Jubilee South Asia Pacific, vive nas Filipinas, recentemente devastada pelo tufão Bopha. Foto: Stephen Leahy/IPS
Segundo cientistas e ativistas, era isso que estava em jogo na 18ª Conferência das Partes (COP 18) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada na capital do Catar, cuja última sessão deveria ter-se encerrado no dia 7, mas se estendeu por mais um dia.
As emissões de carbono já estão a alterar o clima mundial, tornando mais daninhos eventos extremos como secas, tempestades e inundações. A agricultura e a produção de alimentos são muito vulneráveis aos impactos da mudança climática, segundo diversos estudos científicos. “É muito estranho o facto de Doha não dar ênfase à segurança alimentar”, disse Michiel Schaeffer, cientista do Climate Analytics, à IPS. “Não há dúvida de que a mudança climática representa um risco importante para a nossa capacidade de produzir alimentos”, advertiu.
A Climate Analytics e o Potsdam Institute for Climate Impact Research elaboraram para o Banco Mundial o estudo “Reduzir o calor: por que se deve evitar um aumento de quatro graus centígrados da temperatura mundial”, o qual alerta que muitas partes do mundo não poderão cultivar alimentos se as temperaturas planetárias aumentarem quatro graus. O informe também alerta que a humanidade segue rumo a um mundo quatro graus mais quente, no qual haverá ondas de calor sem precedentes, secas severas e inundações importantes, com sérios impactos sobre os ecossistemas e a agricultura.
A temperatura do solo aumentará, em média, entre quatro e dez graus, o que o tornará extremamente quente para muitas culturas alimentares cruciais. Grandes partes de África, China, Índia, México e sul dos Estados Unidos reduzirão a sua produção por esse motivo, destacou Schaeffer. Também haverá mudanças significativas nos padrões de chuvas e maiores níveis de evaporação. Com apenas 0,8 graus de aquecimento já houve secas generalizadas, inundações e outros eventos extremos vinculados à mudança climática. Os preços dos alimentos dispararão, já que grandes áreas do cinturão produtor de grãos nos Estados Unidos foram afetadas este ano por uma seca.
No futuro, cada vez que houver eventos extremos em áreas produtoras de alimentos, os preços dos mesmos voltarão a subir, enfatizou Schaeffer. As investigações mostram que, mesmo com dois graus de aquecimento, haverá sérios problemas de produção alimentar nos planos regionais. Se as temperaturas forem além de três graus, tornar-se-á um problema mundial. Sem reduções importantes nas emissões derivadas de combustíveis fósseis, um mundo entre três e quatro graus mais quente enfrentará ao mesmo tempo um enorme aumento da população. “Isto será catastrófico”, acrescentou.
As negociações estão “a milhões de milhas de onde necessitamos estar para inclusive ter uma pequena possibilidade de impedir uma mudança climática descontrolada”, disse Lidy Nacpil, da Jubilee South Asia Pacific, uma rede de organizações para o desenvolvimento, de inspiração religiosa. “Não podemos voltar aos nossos países e dizer que permitimos que isso ocorresse, que condenamos o nosso próprio futuro”, lamentou Nacpil num comunicado, referindo-se às negociações na COP 18.
Seyni Nafo, do Mali e porta-voz dos negociadores africanos, declarou num comunicado: “Os negociadores africanos levam as mãos à cabeça em gesto de desespero, e perguntam por que deveriam ter-se preocupado em participar das negociações se os países industriais continuam a arrancar-nos mais exigências em troca de nenhum dinheiro ou compromisso. Este cinismo está no seu ponto mais duro nas negociações agrícolas”.
Sem maiores reduções nas emissões, isto prejudicará a nossa capacidade de cultivar alimentos, disse Meena Raman, especialista em negociações da Rede do Terceiro Mundo, da Malásia. “Em Doha, ainda há uma oportunidade de lutar por algo”, disse à IPS no dia 7. Uma coisa necessária é o prometido financiamento por parte das nações industrializadas para ajudar as menos adiantadas a enfrentar os efeitos da mudança climática e a fortalecer os seus sistemas de produção de alimentos.
“As finanças para a adaptação são uma reivindicação crucial dos países em desenvolvimento aqui em Doha, nas negociações climáticas”, disse Doreen Stabinsky, professora de política ambiental no College of the Atlantic. “Sem adaptação é provável que a produção alimentar mundial sofra perdas entre 14% e 30% nas três culturas principais de primavera: trigo, milho e soja”, pontuou Stabinsky. Mesmo agindo rapidamente em matéria de adaptação, de todo modo haverá perdas entre 4% e 26%.
É necessário começar a aumentar a diversidade de culturas agora, para criar resiliência diante das condições climáticas extremas que os agricultores começam a enfrentar, afirmou Teresa Anderson, da Fundação Gaia, sócia britânica da Rede Africana para a Biodiversidade. Os agricultores tradicionais têm centenas de tipos diferentes de sementes para diferentes condições, mas frequentemente estas são deixadas de lado, priorizando soluções tecnológicas para a segurança alimentar, como sementes híbridas e geneticamente modificadas, disse à IPS. “Estes agricultores podem ter uma tremenda diversidade, inclusive, dentro da mesma variedade de milho, uma que germine antes ou floresça depois”, acrescentou.
Esse tipo de diversidade aumenta em boa parte as dificuldades de se obter uma colheita decente, enquanto os modernos enfoques monoagrícolas têm êxito apenas em certas condições. O segundo enfoque é o que levam adiante os grandes negócios agropecuários e os governos. Se para eles vai bem, não há dúvida de que será um enorme fracasso sob as condições extremas da mudança climática, ressaltou Anderson. “Não consigo entender por que as nações industrializadas reunidas em Doha não veem a urgência de tudo isso”, acrescentou.
Envolverde/IPS

E dizer não, não, não! Por Ana Luísa Amaral


Eram precisas uniões, ainda que estratégicas, para exigir a mudança. Dizer “não!”, repeti-lo muitas vezes, insistir a indignação, tornar o “não” em som cada vez mais aberto, alongar-lhe o sentido, denunciar estas vergonhas e estas brutalidades.
15 de setembro de 2012 - Foto de Paulete Matos
’Não’ é a palavra mais selvagem que se pode confiar à língua.
Emily Dickinson

Tigre, tigre, ardendo aceso / Pelas florestas da noite.
William Blake


Era preciso uma nova retórica, ou repetições, só assim talvez se conseguisse apaziguar um pouco a indignação. Dizer “não!” muitas vezes, encher páginas com esta palavra que uma poetisa disse uma vez ser a mais selvagem que se pode confiar à língua, encher as páginas de tal maneira que a palavra transbordasse para o ar, se propagasse como onda de rádio, ou gritar “chega!”, ou “fora!”, ir buscar velhas palavras de ordem e fazê-las de novo, com pulmões de um bronze que retinisse muito alto, transformar as palavras em sons abertos, e com as palavras que temos na mão invadir ruas. Porque elas estão aqui, essas palavras, fazem parte do nosso dicionário e da nossa memória, do nosso dizer de todos os dias, uns aos outros, todos os dias as dizemos, só que noutros lugares de sentido. Neste sentido, o de agora, o de hoje deste ano a findar tão triste, tão cabisbaixo e sem sentido, fazer outra vez das palavras armas de arremesso que não se limitem a pairar, suaves, mas perfurem as florestas da noite, como disse um outro poeta, em furor e indignação pelas indignidades do seu tempo.
De que outra forma responder à violência de, ao abrir um jornal e, em cima de tanta injúria já consumada, ler da torpeza de negócios, como o da Tecnoforma, a que não só se liga o nome do primeiro-ministro mas que foram ainda geridos por um ministro que se serviu de redes de favores para montar para si próprio um curso e um perfil de estudos que verdadeiramente não fez (não fez!), um ministro que nem se demitiu nem foi demitido, mesmo depois de sobre ele ter pesado tanta polémica? De que outra forma responder àqueles que nem sequer consideram negociar uma dívida que não foi (não foi!) criada pelo povo que eles em teoria representam? Porque só em teoria é essa representação – já que esta gente fala como se estivesse do lado de uma margem iluminada, e tudo é dito e desdito (como a afirmação ridícula do primeiro-ministro, depois desmentida pelo ministro da Educação, sobre as propinas do ensino secundário) impunemente.
Este governo não representa o povo, só aqueles que com ele vive na margem iluminada. Por isso se arroga este governo de falar a partir dessa margem arrogantemente, distanciadamente, sem uma palavra de solidariedade, sem lamentos nem desculpas. Nós, os da margem de cá, desesperamos, assistimos a notícias que agudizam o costume da desvergonha e da impunidade, ou olhamos o especial fenómeno de banqueiros, antes confinados aos seus gabinetes e neles resguardados dos olhares públicos, virem agora a público semana sim, semana não, a dizer dos seus dotes politólogos, em clara demonstração da relação incestuosa entre interesses económicos e interesses políticos.
Entre os que vivem nesta margem, estão ainda assim os mais privilegiados, como eu, que tal me considero quando penso nos desempregados em desespero para conseguirem pagar casa e comida, antes ditas solidariamente pão e habitação, ou nos sem-abrigo a amontoarem-se pelas ruas, ou nos jovens sem emprego, ou nos reformados, ou nos idosos de pensões esqueléticas e voz ausente. Mas entre maior e menor privilégio na desgraça, todos somos chamados de alunos obedientes, criticados como piegas, e, se saímos às ruas, desvalorizados em número e em voz pelos do lado de lá, os iluminados pelas sacrossantas conveniências da banca, os que destituem o Estado das suas funções e obrigações de Estado e que, paulatinamente, nos vão destituindo a nós, cidadãos, dos nosso direitos de cidadania. Neste sistema em que apesar de tudo se pode falar e a que damos o nome de democracia, são pardos os rostos que nos destituem. Assim, tem-nos mostrado a História, se vão instalando as ditaduras.
Eram precisas uniões, ainda que estratégicas, para exigir a mudança. Dizer “não!”, repeti-lo muitas vezes, insistir a indignação, tornar o “não” em som cada vez mais aberto, alongar-lhe o sentido, denunciar estas vergonhas e estas brutalidades. E reclamar a paz. Não a paz do repouso, mas a paz da justiça social e da cessação da guerra que é a violência sobre todo um povo. Lembrar que o “não”, esta pequena palavra, usada todos os dias, pode habitar um lugar novo de sentido. E que sendo, no dizer poético e em metáfora, a mais selvagem, pode também ser, na vida, a única suficientemente poderosa para combater a selvajaria. E contra ela arder, acesa.
Ana Luísa Amaral, poeta e professora universitária
Artigo publicado no jornal “Público” a 10 de dezembro de 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Estudantes protestam contra fecho de cantina da Universidade de Lisboa


Três dezenas de estudantes universitários estão, neste momento, concentrados na cantina nova da Universidade de Lisboa (UL) e prometem continuar até que algum representante da reitoria do ISCTE apareça no local. A reitoria da UL anunciou recentemente o fecho da cantina no final do ano, medida que deixará milhares de alunos, sobretudo do ISCTE, sem acesso a este serviço público. O deputado bloquista Luís Fazenda esteve presente, solidarizando-se com o protesto.
Os estudantes prometem ficar na cantina até o reitor do ISCTE, Luís Reto, se deslocar ao local para ouvir o protesto. Foto de Paulete Matos.
Os estudantes prometem ficar na cantina até o reitor do ISCTE, Luís Reto, se deslocar ao local para ouvir o protesto. Foto de Paulete Matos.
Por volta do meio-dia desta segunda-feira, um grupo de estudantes concentrou-se na chamada cantina nova da Universidade de Lisboa, na Av. das Forças Armadas, que deverá encerrar no final do ano, conforme o anúncio feito pela reitoria da UL. Representantes das associações académicas dizem que não foram ouvidos e ameaçam ficar dentro da cantina até que algum membro da reitoria do ISCTE-IUL se desloque ao local.
A concentração foi convocada pelo Movimento Artigo 74º, coletivo que surgiu após a Greve Geral de 14 de novembro e que é composto por estudantes de várias escolas e universidades, com percursos pessoais e políticos diferentes e que reivindicam o Direito à Educação.
João Mineiro, da Associação Académica do ISCTE, assegurou que “a decisão foi tomada nas costas dos estudantes”, já que, “em nenhum momento do processo, a AA foi ouvida”. A representar a Associação Académica da Universidade de Lisboa, José Pereira considerou o fecho da cantina “uma solução errada” e destacou a “política de não negociação do reitor do ISCTE”, cita o jornal Público.
Os estudantes prometem ficar na cantina até o reitor do ISCTE, Luís Reto, se deslocar ao local para ouvir o protesto.
Durante a hora de almoço, o chefe de gabinete do reitor da Universidade de Lisboa esteve no local e discutiu a questão com os manifestantes. “Fizemos todos os esforços para envolver os alunos do ISCTE”, afirmou.
O representante do reitor disse que o fecho da cantina “não é um dado absoluto”, mas perante as questões dos manifestantes preferiu destacar o programa de alimentação que "prevê um aumento do número de refeições disponibilizadas aos alunos e que servirá de alternativa ao encerramento da cantina".
Sobre o despedimento das funcionárias da cantina, que pertencem a uma empresa privada, o representante do reitor considerou “essa abordagem" como "uma forma de inclinar a questão” e vincou: “Não é uma questão que esteja em cima da mesa."
Cantina serve maioritariamente os estudantes do ISCTE que não têm alternativas
Nos últimos dias, a UL anunciou o reforço do “Programa Alimentação”, devido à situação de “extraordinária crise” que afeta os estudantes, afirmando que serão servidas ao preço da cantina refeições em todos os bares e refeitórios concessionados.
Este programa implica, contudo, o encerramento da cantina nova, uma vez que, segundo estudo da reitoria da UL, esta serve maioritariamente estudantes de outra academia, o ISCTE. Os 9 mil estudantes desta instituição terão como única alternativa a única cantina do ISCTE que tem apenas 70 lugares.
Ao protesto juntou-se ainda, em solidariedade, o deputado do Bloco de Esquerda, Luís Fazenda, que sublinhou o “desentendimento” entre as universidades e descreveu o fecho da cantina como uma “punição” que ocorreu porque “uma instituição não quer e a outra não pode”.
A cantina nova da UL ocupada. Foto de Paulete Matos.

Manifestação anti-racista na Grécia no dia 15 de Dezembro


A manifestação é organizada por uma organização anti-racista europeia e conta com o apoio de destacados ativistas, artistas, escritores e ensaístas como o Nobel da Literatura Dario Fo e o filósofo Bernard-Henri Lévy. Será na Grécia porque a intolerância aumenta neste país em crise e debaixo dos holofotes dos media.
Manifestação anti-racista na Grécia no dia 15 de Dezembro
"Vamos ser claros: combater o racismo, o anti-semitismo e o neonazismo na Grécia não significa estar contra a Grécia. Significa combater uma ideologia de ódio que se espalha por todo o continente europeu."
O racismo, o anti-semitismo e o neonazismo não podem ser considerados movimentos "naturais", considera a European Grassroots Antiracist Movement (EGAM), que marcou para 15 de Dezembro uma grande manifestação internacional em Atenas contra estas, e outras, intolerâncias.
A manifestação foi convocada na Grécia porque também ali o racismo está em expansão, considerando-se, por exemplo, os resultados eleitorais expressivos de partidos de extrema-direita com um discurso xenófobo assumidíssimo como o Aurora Dourada.
"Considerando a intolerância que se vive atualmente na Grécia, nós, os líderes da sociedade civil, intelectuais, artistas e cidadãos envolvidos na luta política e social, queremos dizer em uníssono: basta", diz o manifesto do grupo, que é assinado, entre outros, por Benjamin Abtan, presidente do EGAMN, Dario Fo (dramaturgo e Nobel da Literatura), Bernard-Henri Lévy (filósofo), Dimitris Sotiropoulos (professor na Universidade de Atenas) e Angela Scalzo, secretária-geral do SOS Racismo Itália. Convocatória e subscritores disponíveis aqui.
Os organizadores consideraram que a Grécia deve ser o palco deste protesto, que se pretende internacional, pois o discurso racista, a negação do Holocausto ou o aumento da violência contra minorias está a aumentar naquele país. E, estando a Grécia debaixo dos holofotes dos media internacionais devido à crise financeira e social, que não justifica, mas ajuda a fazer crescer a intolerância, seria Atenas o melhor local para realizar o protesto.
"Vamos ser claros: combater o racismo, o anti-semitismo e o neonazismo na Grécia não significa estar contra a Grécia. Significa combater uma ideologia de ódio que se espalha por todo o continente europeu. Significa estar a lutar pela democracia na Europa. Significa dar a todos, sobretudo aos mais jovens, uma esperança no futuro que é melhor do que o objetivo inacessível do pagamento da dívida".
A manifestação está marcada para o início da tarde do próximo sábado, em frente ao parlamento grego, em Atenas, seguindo-se uma marcha até à Acrópole.

Em Espanha, bancos desalojam 500 famílias por dia


Em 40 dias, quatro pessoas se suicidaram diante da iminente perda das suas casas. A previsão das associações de consumidores é de que, até ao final de 2012, o número total de desalojamentos forçados ultrapasse os 100 mil. Por Naira Hofmeister/Carta Maior.
É a face mais perversa da crise económica em Espanha: a cada dia mais de 500 famílias são expulsas de suas casas pela impossibilidade de seguir pagando o financiamento do imóvel ao banco.
É a face mais perversa da crise económica em Espanha: a cada dia mais de 500 famílias são expulsas de suas casas pela impossibilidade de seguir pagando o financiamento do imóvel ao banco.
É a face mais perversa da crise económica em Espanha: a cada dia mais de 500 famílias são expulsas de suas casas pela impossibilidade de seguir pagando o financiamento do imóvel ao banco. A previsão das associações de consumidores é de que até o final de 2012 o número total de desalojamentos forçados ultrapasse os 100 mil.
Como se os números não fossem suficientes para demonstrar o drama, há outros vários elementos que multiplicam sua intensidade e que levam milhares de cidadãos a perguntarem: “por quê?”
O primeiro ponto de dúvida sobre a validade de ações de despejo é que enquanto os antigos moradores passam a depender do favor de amigos ou parentes para ter um teto, seus lares ficam vazios, já que a recessão abrandou o comércio de imóveis em todo o país.
De fato, em 2011 (antes de que o problema atingisse seu auge, portanto) o número de financiamentos concedidos foi 33% inferior ao do ano anterior, mais um dado ruim para um setor que já acumula cinco anos no negativo.
Pior: além de não resolver o problema do banco – que de qualquer maneira fica sem receber dinheiro pelo imóvel que retomou – tomar a casa do comprador incumpridor não o livra da dívida, como acontece no Brasil. Pelo contrário, o desalojado fica sem teto e com um débito que varia entre 150 e 300 mil euros, segundo cálculos das associações que lutam pelos direitos desses cidadãos afetados pelo problema.
“É um embargo à vida da pessoa porque quando recupera a sua condição económica, terá uma dívida imensa para fazer frente”, condena o técnico da Associação de Usuários de Bancos, Caixas e Seguros da Espanha (Adicae), Francisco Javier Alvarado, que mantém uma organização para tentar evitar os despejos.
Ocorre que grande parte dos inadimplentes (incumpridores) estão incluídos nos 25% da população economicamente ativa espanhola desempregada. Existem 1,7 milhão de lares espanhóis nos quais nenhum integrante tem uma renda fixa – e mais de 5 milhões são sustentados por uma única pessoa com renda.
Diante dessa situação, não parece um absurdo que nos últimos 40 dias quatro pessoas se tenham suicidado ao receber o comunicado judicial de que devem deixar seus lares.
“São dramas humanos muito fortes. Há vários casos de desalojo de famílias com crianças pequenas ou de anciões que deram sua casa como garantia ao financiamento pedido pelos filhos. É impossível ficar imune”, reconhece o porta-voz do Sindicato Unificado da Polícia espanhola, José María Benito Celador.
Os agentes reclamam de um problema de consciência: por um lado, não podem descumprir o seu dever nem as ordens que recebem. Por outro, o sindicato já denunciou casos inclusive de mal-estar físico, de guardas que tiveram que ser levados ao hospital depois de participar em um despejo. “Já há muitos agentes que se negam a ir a ações deste tipo”, revela. E coloca o dedo na ferida: “A lei é injusta”.
 Famílias incumpridoras são acusadas sem direito à defesa
As centenas de pessoas que perdem suas casas diariamente na Espanha – já são mais de 500 mil desde 2008 – não são apenas vítimas de uma crise económica que nem o Partido Socialista (PSOE) e tampouco o atual governo comandado pelo Partido Popular (PP) souberam solucionar.
Muitos dos contratos que permitem hoje aos bancos reclamar a casa pelo não pagamento da dívida de financiamento possuem cláusulas abusivas – a mais famosa é a que institui um mínimo de juros a serem pagos mesmo nos casos em que o índice que gere o reajuste das parcelas se reduza.
Mas há outras mais: “Durante o período da bolha imobiliária foram feitos todos os tipos de aberrações. Só pensavam em vender apartamentos e casas, não importa com que condições”, condena o técnico da Adicae, Francisco Javier Alvarado.
Não por casualidade a bolha imobiliária é um dos elementos que está na origem da crise econômica na Espanha. E embora o argumento seja suficientemente forte ao menos para levar um juiz a pedir um estudo criterioso de cada contrato, não é possível parar uma execução de despejo porque há uma cláusula legal que dá razão ao reclamante. “Contra os bancos ninguém pode se opor”, critica o porta-voz da associação progressista Juízes para a Democracia, Joaquim Bosch.
Não há direito à defesa, o sujeito não pode argumentar sobre o porquê não paga nem demonstrar que o contrato é nulo, abusivo, ou foi feito contra as leis. “No caso das hipotecas há uma nítida vantagem dos bancos sobre as pessoas. Essa situação vulnerabiliza o direito fundamental à moradia, que está garantido na Constituição”, denuncia Joaquín Bosch.
Vale lembrar que os bancos, que se beneficiaram da negligência dos órgãos de controle e de defesa do consumidor durante o período de fartura, também são os grandes protegidos dessa crise: enquanto nos últimos cinco anos se destruíram 4 milhões de postos de trabalho no país, e apenas em 2012 houve aumento de impostos e recortes em serviços sociais, o governo espanhol teve que assumir como seu o resgate que a União Europeia concedeu às entidades financeiras 100 mil milhões de euros. Parte do dinheiro será aplicada na criação de um “banco ruim”, que reunirá todos os ativos desvalorizados das instituições para sanear os caixas privados.
Decreto do governo é insuficiente
Diante da comoção social que tomou conta da Espanha no último mês – além de associações de todo o tipo se manifestarem contra a forma como estão sendo levadas a cabo as execuções hipotecárias, vários prefeitos de cidades espanholas libertaram seus corpos policiais de participar em ações de despejos, se comprometendo a assumir eventuais problemas judiciais que surjam por “insubmissão” – o governo atuou.
Sem conseguir um acordo com o principal partido da oposição (PSOE), a gestão de Mariano Rajoy (PP) baixou um decreto que paralisa durante dois anos os despejos em famílias que se encontrem em situação de “risco extremo”. Na prática, a medida fez com que os processos judiciais se detivessem porque agora é necessário reestudar cada caso para ver se se enquadra no perfil protegido pela lei.
Mas não é o suficiente. As associações acusam o governo de manobrar para tirar da mídia os casos mais dramáticos – os de famílias extremamente pobres, por exemplo, que revoltam mais a população – mas afirmam que o decreto não terá impacto significativo no número total de despejos.
“Essa moratória é insuficiente porque exclui a maioria das pessoas afetadas e não aborda o problema da dívida, que seguirá aumentando durante os dois anos previstos de moratória”, protesta a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas (PAH).
“Pior”, prosseguem, “o decreto pode piorar a situação porque pode provocar que algumas pessoas atentem contra sua própria saúde para cumprir com o requisito de 'doença grave' ou que decidam ter um filho para entrar na categoria de 'família com um filho menor de três anos'”. De todas as formas, nenhum dos casos de suicídio ocasionado pela ameaça de despejo seria evitado se o novo decreto já estivesse em vigor.
O que todas as associações consultadas para esta reportagem defendem é uma moratória geral no pagamento do financiamento bancário de imóveis que permita revisar a lei que gere esse mercado – que deveria conter a possibilidade de que a entrega do imóvel quite a dívida do comprador, algo que os bancos temem que gere uma distorção na toma de empréstimos.
A cidadania também solicita que o governo institua o “aluguel social”, o que além de tudo movimentaria o setor de compra e venda de casas e apartamentos ou a construção civil, já que o Estado deveria adquirir esses locais para logo alugar a famílias necessitadas.
Os bancos se manifestam apenas reiterando que lamentam o ponto a que chegou a situação, mas não propuseram nada além dos dois anos de moratória. A PAH já recebeu o comunicado de que para a próxima semana estão previstos 12 despejos, em oito diferentes municípios do país.

Artigo de Naira Hofmeister/Carta Maior.

 

Comunicado do Bloco de Esquerda sobre a Escola EB2,3 de Minde

Consulte no link abaixo:

Requerimento ao Secretário de Estado do Ambiente

Bloco requereu a vinda do Secretário de Estado do Ambiente

à AR para esclarecer funcionamento da ETAR de Alcanena

O deficiente funcionamento da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Alcanena, com mais de 20 anos, tem sido extremamente penalizador para a qualidade de vida e saúde pública das populações deste concelho, além de ser responsável pela poluição de recursos hídricos e solos.

Esta ETAR, destinada a tratar os efluentes da indústria de curtumes, foi desde a sua origem mal concebida, a começar por se situar em leito de cheia. Desde então os problemas são conhecidos e persistem: maus cheiros intensos; incumprimento regular dos valores-limite estabelecidos para o azoto e CQO das descargas de efluente tratado em meio hídrico; célula de lamas não estabilizadas, com deficiente selagem e drenagem de lixiviados e biogás; redes de saneamento corroídas, com fugas de efluentes não tratados para o ambiente; saturação da ETAR devido a escoamento das águas pluviais ser feita nas redes de saneamento.

Desde há muito que estes problemas são conhecidos e nada justifica, ainda mais com todo o avanço tecnológico existente ao nível do funcionamento das ETAR, que se chegue ao final de 2010 com esta situação. E pior se compreende quando é o próprio Ministério do Ambiente a constatar que gastou ao longo dos anos cerca de 50 milhões de euros para tentar responder a estes problemas.

Em Junho de 2009 foi assinado um protocolo para a reabilitação do sistema de tratamento de águas residuais de Alcanena pela ARH Tejo, o INAG, a Câmara Municipal e a AUSTRA (gestora da ETAR), com investimentos na ordem dos 21 milhões de euros de comparticipação comunitária.

Este protocolo inclui cinco projectos, os mais importantes dos quais com prazo final apenas em 2013, o que significa arrastar os principais problemas identificados até esta data. Como os prazos de início dos estudos destes projectos já sofreram uma derrapagem, dúvidas se colocam sobre o cumprimento dos prazos estabelecidos, ainda mais quando não há certezas sobre a disponibilização de verbas nacionais para co-financiar os projectos, tendo em conta o contexto de contenção actual.

Considerando a gravidade dos problemas causados pela ETAR de Alcanena para as populações e o ambiente, o deputado José Gusmão e a deputada Rita Calvário do Bloco de Esquerda solicitam uma audiência com o Secretário de Estado do Ambiente, com a finalidade de obter esclarecimentos sobre os investimentos previstos para a reabilitação do sistema de tratamento, as soluções escolhidas, o cumprimento de prazos, e as garantias que os mesmos oferecem para resolver o passivo ambiental existente, os focos de contaminação dos recursos hídricos e solo, os maus cheiros e qualidade do ar respirado pelas populações deste concelho. Seria de todo útil que o presidente ou representantes da ARH-Tejo estivessem presentes nesta audiência.

Lisboa, 17 de Dezembro de 2010.

A Deputada O Deputado

Rita Calvário José Gusmão

Direito a não respirar “podre” – SIM ou NÃO?





No passado domingo, dia 12 de Dezembro, no Auditório Municipal de Alcanena, realizou-se uma conferência, dinamizada pelo Bloco de Esquerda, sobre a poluição em Alcanena.
Esta sessão reuniu um grupo de ‘preocupados’, que primeiramente ouviram as exposições de especialistas sobre o assunto e, no final, trocaram experiências e pontos de vista, baseados na própria vivência, bem como em conhecimentos técnicos e científicos.
Ficou bem patente que se trata de um grave problema de há muito sentido, mas também desvalorizado, do qual até ao momento não se conhecem as verdadeiras implicações para a saúde pública, mas que transtorna a vida de todos os que vivem e trabalham no concelho, tornando desagradável e doentio o seu dia a dia.
Ficou também claro que o Bloco de Esquerda, aliado desta causa, não abandonará a luta, que será levada até onde os direitos das pessoas o exigirem.

Comunicado de Imprensa

Leia em baixo o Comunicado de Imprensa de 3 de Dezembro do Bloco de Esquerda em Alcanena.

Clique aqui para ler

Reclamamos o DIREITO A RESPIRAR

Bloco de Esquerda continua na senda de uma solução para o grave problema de poluição ambiental em Alcanena



Na passada sexta-feira, dia doze de Novembro, uma delegação, composta pelo Deputado do Bloco de Esquerda pelo Distrito de Santarém, José Gusmão, e mais dois elementos do Bloco, foi recebida pela administração da Austra, no sentido de esclarecer alguns pontos relativos ao funcionamento da ETAR e à poluição que de há muito tem afectado Alcanena, com acrescida intensidade nos últimos tempos.

O Bloco de Esquerda apresentou já um requerimento ao Ministério do Ambiente, aguardando resposta.

Após a reunião com a administração da Austra, realizou-se na Sede do Bloco em Alcanena uma Conferência de Imprensa para fazer o ponto da situação.

Da auscultação da Austra, ficou claro para o Bloco de Esquerda que a ETAR de Alcanena não reúne as condições minimamente exigíveis, quer do ponto de vista do cumprimento da lei, quer da garantia de índices de qualidade do ar compatíveis com a saúde pública e o bem estar das populações.

A delegação do Bloco de Esquerda obteve do presidente da Austra o compromisso da realização de operações de monitorização da qualidade do ar em Alcanena, a realizar o mais tardar em Janeiro. De qualquer forma, o Bloco de Esquerda envidará esforços para que essa monitorização ocorra de forma imediata.

Embora existam planos para a total requalificação dos sistemas de despoluição, registamos com preocupação a incerteza sobre os financiamentos, quer nacional quer comunitário. O Bloco de Esquerda opor-se-á a que estes investimentos possam ser comprometidos por restrições orçamentais, e exigirá junto do Governo garantias a este respeito.

A participação popular foi e continuará a ser um factor decisivo para o acompanhamento e controlo da efectiva resolução do problema da qualidade do ar em Alcanena.

No âmbito da visita do Deputado do Bloco de Esquerda, José Gusmão, ao Concelho de Alcanena, realizou-se um jantar-convívio no Restaurante Mula Russa em Alcanena, ocasião também aproveitada para dialogar sobre assuntos inerentes ao Concelho. Mais tarde, José Gusmão, conviveu com um grupo de jovens simpatizantes num bar deste concelho.

No sábado, dia treze de Novembro, José Gusmão e outros elementos do Bloco de Esquerda estiveram em Minde, no Mercado Municipal, distribuindo jornais do Bloco, ouvindo e conversando com as pessoas.

Neste mesmo dia, junto ao Intermarché de Alcanena, José Gusmão contactou com as pessoas e entregou jornais do Bloco de Esquerda.

Num almoço realizado em Minde, no Restaurante Vedor, com um grupo de aderentes e simpatizantes do Bloco, houve mais uma vez oportunidade para ouvir opiniões, experiências e expectativas, bem como de exprimir pontos de vista.

O Bloco de Esquerda continuará a luta por um direito que parece ser inerente à própria condição humana, mas que vem sendo negado às pessoas que vivem e trabalham em Alcanena – o direito de respirar ar “respirável” e de não ser posta em causa a sua saúde.


A Coordenadora do Bloco de Esquerda de Alcanena

Poluição em Alcanena: Requerimento à Assembleia da República

Pessoas esclarecidas conhecem o seu direito de respirar ar puro e lutam pela sua reconquista já que alguns até isto usurparam.

O Bloco de Esquerda encetou a luta pela despoluição de Alcanena na legislatura anterior e continuará a manifestar-se e a rebelar-se contra esta desagradável e injusta situação até que no nosso concelho possamos respirar de novo.


Veja aqui Requerimento apresentado pelo BE quanto à questão da poluição em Alcanena

Carta à AUSTRA

Carta entregue pelo grupo de cidadãos "Chega de mau cheiro em Alcanena" ao Presidente da Austra e Presidente da Câmara Municipal de Alcanena

INAUGURAÇÃO DA SEDE DO BLOCO DE ESQUERDA EM ALCANENA

Francisco Louçã inaugurou no passado domingo, dia 31 de Outubro, a Sede do Bloco de Esquerda em Alcanena. Na inauguração esteve também representada a Coordenação Distrital do Partido; estiveram presentes aderentes e convidados. Esta ocasião especial foi uma oportunidade de convívio, acompanhada de um pequeno beberete.
Francisco Louçã falou, como sempre, de forma clara e apelativa, abordando a actual situação crítica do país,apontando as razões, propondo alternativas e caminhos.
Baseando-se no Socialismo Democrático, o Bloco de Esquerda tem sido sempre activo na defesa dos valores da verdadeira Democracia, e propõe-se continuar essa luta. Esta nova Sede é mais um ponto de encontro, de trabalho, de partilha de pontos de vista e de tomada de iniciativas, possibilitando que se ouçam as vozes de todas as pessoas e transmitindo os seus problemas e expectativas.
Trata-se de um pequeno espaço, que representa uma grande vontade de mudança e que espera contar com a presença de todos os que partilhem os ideais de um concelho mais próspero, de uma sociedade mais justa e equilibrada, de um país realmente mais avançado.