terça-feira, 28 de junho de 2011

Bancada parlamentar do Bloco é a única que cumpre paridade

Não obstante uma mulher assumir, pela primeira vez, a Presidência do Parlamento, a representação feminina na Assembleia da República é inferior na nova legislatura. Bancada do Bloco é a única que cumpre paridade, tendo quatro mulheres em oito deputados.
Bancada parlamentar do Bloco de Esquerda.
Bancada parlamentar do Bloco de Esquerda.
Na XII Legislatura, as mulheres representam 26 por cento do total dos 230 assentos parlamentares, contra os 28,1% da legislatura anterior. Apenas a bancada do Bloco de Esquerda é paritária, com quatro homens e quatro mulheres.
No PSD a representação feminina fica-se pelos 29 por cento, enquanto no CDS as mulheres representam apenas 20,83 por cento da bancada parlamentar. No PCP existem duas mulheres entre dezasseis deputados e no PS são dezanove entre cinquenta e cinco homens.
Os oito deputados eleitos pelo Bloco de Esquerda são Ana Drago (Lisboa), Catarina Martins (Porto), Cecília Honório (Faro), Francisco Louçã (Lisboa), João Semedo (Porto), Luís Fazenda (Lisboa), Mariana Aiveca (Setúbal) e Pedro Filipe Soares (Aveiro).

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Estudo do Governo Sócrates dado à troika propõe o fecho de 800 km de linha férrea

Um estudo dos ministérios das Finanças e das Obras Públicas e Transportes do Governo Sócrates, feito à revelia da Refer, propõe o encerramento de 800 km de linha férrea, reduzindo a ferrovia ao eixo Braga-Faro e às linhas da Beira Alta e da Beira Baixa.
O documento reduz a ferrovia ao eixo Braga-Faro e às linhas da Beira Alta e da Beira Baixa. Foto de nmorao/flickr - Estação de Alcácer do Sal, 2008
O documento reduz a ferrovia ao eixo Braga-Faro e às linhas da Beira Alta e da Beira Baixa. Foto de nmorao/flickr - Estação de Alcácer do Sal, 2008
O jornal “Público” deste domingo revela que o anterior Governo PS encomendou o estudo e entregou-o à troika, como uma medida para reduzir a despesa pública, através da redução das despesas da Refer e da CP. Os cortes impostos por FMI, CE e BCE impuseram na Grécia a redução de 700 km de via férrea, cortando 44 por cento das suas linhas e reduzindo 59 por cento do tráfego de passageiros. Estes cortes fomentam o transporte rodoviário, como alternativa, e a prazo aumentam o défice energético do país, agravando o défice externo e a dependência energética. Têm também um efeito devastador no aumento das emissões de dióxido de carbono e vai contra todas as perspectivas de defesa da sustentabilidade ambiental. Contrariamente a esta posição do documento do Governo Sócrates, o Bloco de Esquerda sempre defendeu a ferrovia, opôs-se à sua privatização e ao encerramento de linhas, tendo na última campanha eleitoral apresentado um Plano Ferroviário Nacional.
No artigo de Carlos Cipriano no jornal “Público” compara-se esta proposta de encerramento de 794 km de linhas ferroviárias, à “razia” dos anos 80, quando foram encerrados 800 km de linhas, nomeadamente no Alentejo e em Trás-os-Montes. O documento que foi entregue à troika propõe o encerramento das linhas que estão “provisoriamente” encerradas à espera de modernização (Corgo, Tâmega, Tua e troços Figueira da Foz-Pampilhosa e Guarda-Covilhã, num total de 192 quilómetros), a Linha do Oeste entre Louriçal e Torres Vedras (127 quilómetros), a Linha do Douro, entre Régua e Pocinho (68 quilómetros), a Linha do Leste entre Abrantes e Elvas (130 quilómetros), a Linha do Vouga (96 quilómetros), o ramal de Cáceres (65 quilómetros), a Linha do Alentejo entre Casa Branca e Ourique (116 quilómetros). Os cortes agora propostos não ficam pelo interior, como em 80, mas abrangem áreas mais vastas, sendo no entanto o interior norte e o Alentejo os mais penalizados, deixando até a cidade de Beja sem comboio.
Segundo o jornal, a actual administração não compartilha do plano entregue à troika, apesar de, num estudo ainda não terminado, propor igualmente cortes mas de 240 km: o encerramento das linhas “provisoriamente” fechadas (com excepção da ligação Guarda-Covilhã), o ramal de Cáceres (Torres das Vargens-Marvão), a Linha do Vouga apenas entre Albergaria e Águeda (14 quilómetros) e a Linha do Alentejo entre Beja e Ourique (36 quilómetros).
Técnicos da Refer salientaram ao jornal diversas contradições do estudo, salientando nomeadamente que o encerramento conjunto do ramal de Cáceres e da Linha do Leste deixaria os portos de Sines, Setúbal e Lisboa quase sem ligação ferroviária a Madrid e à Estremadura espanhola, uma vez que a sul de Vilar Formoso não haveria ligação ferroviária a Espanha.

Ricardo Petrella: Os “bens comuns” são centrais à realização do Bem Comum

Ar, água, solo, saúde, conhecimento, segurança, trabalho, memória etc.: os “bens comuns” são o principal instrumento do ser e do viver juntos. E são centrais à realização do Bem Comum, representado pela existência do outro, defende o economista e cientista político italiano Riccardo Petrella
“A mercantilização da água, em particular, é totalmente inaceitável. Ela significa a dessacralização da vida”, Riccardo Petrella
“A mercantilização da água, em particular, é totalmente inaceitável. Ela significa a dessacralização da vida”, Riccardo Petrella
Moisés Sbardelotto entrevista Riccardo Petrella. Tradução de Benno Dischinger, IHU (Instituto Humanitas Unisinos) On-line, 9 de maio de 2011
Vive-se hoje numa dupla cultura socio-económica: a cultura da conquista e do domínio, pela qual o mundo tem sido reduzido a uma série de mercados a conquistar, e a cultura do instrumento, para a qual o que conta não é a pessoa humana, mas sim a eficácia e o rendimento do objeto-mercadoria e do sistema. Por isso, “a economia actual é a negação do viver juntos. É um abuso de sentido utilizar o conceito de ‘economia’ para falar do sistema predatório atual”.
Em entrevista à IHU On-Line por e-mail, o economista e cientista político italiano Riccardo Petrella*afirma que, nesse contexto, é necessário reafirmar o valor do “Bem Comum”, aquele “conjunto dos princípios; das regras; das instituições; e dos meios que uma sociedade se dá para permitir que todos os seus membros vivam digna e decentemente e que contribuam ao viver juntos no respeito às diversidades de cada um e em cooperação com as outras comunidades humanas”.
IHU On-Line – Em 2011 ocorre o 50º aniversário de um dos documentos oficiais da Igreja sobre questões sociais, a encíclica Mater et Magistra, de João XXIII. Qual era a situação política, económica e social do mundo que o papa procurou enfrentar com este texto, em particular naquele momento histórico?
Riccardo Petrella – O final dos anos 1950 e o início dos anos 1960 era um período caracterizado por grandes tensões internacionais ligadas à Guerra Fria entre os dois impérios hegemónicos mundiais (Estados Unidos e União Soviética). Os velhos impérios coloniais europeus estavam, então, no final de seus dias após as lutas de libertação nacional. Haviam nascido dezenas de novos Estados na África e na Ásia. Eram grandes as esperanças numa nova ordem internacional, embora estivessem “engaioladas” na divisão Leste-Oeste (capitalismo/comunismo). O Médio Oriente estava sempre em foco: como hoje, os direitos do povo palestiniano eram inteiramente negados. Seis países europeus haviam dado nascimento a uma pequena “Comunidade Europeia” sob a insígnia da integração económica e dos mercados. Era também o período das grandes greves operárias e das lutas camponesas, principalmente nos países da América Latina. Na Europa, a questão social era muito forte, porque os grupos económicos e sociais dominantes procuravam tirar o máximo de vantagem dos benefícios do “crescimento económico” sempre mais selvagem. No Ocidente começara a grande revolução tranquila de superação da velha cultura religiosa conservadora e da busca de um catolicismo aberto ao mundo. Os povos de confissão muçulmana continuavam “fechados” nos seus “territórios”. O vento mundial soprava em direção à mudança, em favor de novas ideias e novas soluções.
IHU On-Line – De que forma conceitos como justiça, equidade, subsidiaridade e bem comum, tão usados na encíclica, podem dialogar com a economia contemporânea?
Riccardo Petrella – A economia contemporânea é uma economia fundada sobre três poderes: o primado do capital financeiro; o papel hegemónico das empresas privadas; e o poder do mercado.
Segundo os princípios e os objectivos hoje predominantes, o valor de cada coisa (res) material e imaterial, natural e artificial, é mensurado em função da sua contribuição para a criação de riqueza para o capital, em particular o financeiro. Um “recurso humano”, uma floresta, um gene, um algoritmo que não contribui criando valor para o capital não vale nada. Ao contrário, o seu valor é elevado se a riqueza por eles criada para o capital for elevada. Não é por acaso que, a partir dos anos 1990, os grupos dominantes impuseram a “monetarização da natureza” (das florestas, do capital biótico, da água…) como principal instrumento de uma política de desenvolvimento sustentável, o que constitui uma das maiores mistificações ideológicas, científicas e políticas realizadas nas últimas décadas. Portanto, criar valor para o capital é considerado hoje, pela economia contemporânea, a principal função da criatividade individual e colectiva.
Nesse contexto, é opinião difundida que o principal sujeito de criação da riqueza é a empresa privada. A essa se atribui o papel de “produtora” de bem-estar, de progresso, de inovação, um papel que é, ao invés, negado ao Estado, aos poderes públicos, às instituições/empresas públicas, acusadas de serem organismos parasitários, ineficazes, desperdiçadoras de riqueza. Pensa-se que a empresa privada possui os saberes, as competências, o know-how necessário para assegurar o desenvolvimento e o crescimento económico. Pensa-se, outrossim, que a empresa privada, o capital privado, possui os recursos financeiros necessários para investir na criação dos bens e dos serviços indispensáveis e insubstituíveis para a vida. Ao Estado, o qual os grupos sociais dominantes de hoje dispensariam com prazer, confere-se somente o papel de enquadramento geral, sobretudo com o fim de garantir o livre operar do capital, da empresa e dos mercados. A exaltação da empresa privada alcançou nos últimos anos níveis paroxísticos, a ponto de fazer dizer a muitos governos que a sua função é aquela de serem pro-business.
Tudo isso, no “sagrado” respeito do mercado e dos seus mecanismos, sendo o mercado elevado a sujeito regulador supremo, indiscutível, do funcionamento da economia e da sociedade. Não há vida, não há salvação, dizem os grupos dominantes, fora do mercado. Recentemente, uma grande figura da social-democracia mundial, Felipe Gonzáles, afirmou que “não há democracia sem mercado”. Quando o mercado fala, os poderes públicos – afirma-se – devem ficar calados e respeitar as palavras do mercado. São os mercados financeiros e não os ministros das finanças que decidem sobre a política monetária e a política financeira do mundo. O mercado é considerado o instrumento mais apropriado e eficaz para assegurar a valorização ideal máxima dos recursos disponíveis e do intercâmbio dos bens e serviços.
À luz de tudo o que foi dito acima, é evidente que a economia contemporânea se conjuga mal com os princípios de justiça e de subsidiaridade e opera de maneira totalmente oposta à construção e ao desenvolvimento do bem comum.
Onde está, hoje – excepção feita para o caso de alguns países da América Latina –, a busca da justiça social, quando a tendência estrutural, imposta pela economia dominante, vai no sentido do desmantelamento geral do Estado do bem-estar, do Estado social, do Estado da segurança social, que foi uma das maiores conquistas humanas e sociais do século XX?
Onde está a justiça social quando, a partir de 1995, os poderes fortes da economia mundial e da comunidade internacional decidiram abandonar o objectivo fixado em 1974 de erradicação da pobreza absoluta no mundo até o ano 2000, para contentar-se com aquele da redução/redimensionamento da pobreza em 2015, após ter admitido que a economia contemporânea permitira que o número dos pobres absolutos se elevasse, no ano 2000, a 2 mil e 800 milhões de pessoas em vez de zero? E como se pode falar de justiça social nos Estados Unidos e na Europa, quando, em 2010, a riqueza produzida pelos dois continentes superou os 40 biliões de dólares, enquanto os dirigentes afirmam que não existem os recursos financeiros públicos para garantir os níveis de segurança e de protecção social do passado (quando os ditos continentes eram menos ricos do que agora!), enquanto é possível distribuir centenas de milhares de milhões de dólares em dividendos, bónus e prémios variados a qualquer milhar de empresários?
A realidade demonstra que os países mais ricos e poderosos do mundo, bem como os grupos sociais mais ricos dos países pobres, são incapazes de pensar e de praticar a justiça social. O que lhes interessa é o próprio crescimento económico, a própria competitividade, a própria riqueza.
Os três poderes sobre os quais está fundada a economia contemporânea têm “feito vencer” o capital, a empresa e o mercado, mas têm “feito perder” a sociedade. A prioridade conferida aos ditos poderes tem conduzido à afirmação de uma dupla cultura:
1) a cultura da conquista e do domínio. O mundo tem sido reduzido a uma série de mercados a conquistar. O que importa é vencer. Winning in the global economy (vencer na economia global) foi o título emblemático de um relatório do Conselho das Ciências do Canadá, de 1963. Desde então, a economia global se tingiu um pouquinho de verde (a Green economy), mas o princípio permanece o mesmo: vencer;
2) a cultura do instrumento. O que conta não é a pessoa humana, o viver juntos, mas sim a eficácia e o rendimento do objecto-mercadoria (o automóvel, o programa televisivo, o computador…) e do sistema (os mercados financeiros, as redes da Web…). A pessoa humana tornou-se um “recurso”, como o são os recursos naturais, os recursos tecnológicos, os capitais especulativos… Nesse sentido, o recurso, também humano, tem sido reduzido a um custo e a uma oportunidade de lucro a desfrutar.
IHU On-Line – A Doutrina Social da Igreja tem a sua definição de “bem comum”, manifestado também na Mater et Magistra. Mas, para o senhor, o que é o bem comum?
Riccardo Petrella – O “Bem Comum”, como confirmado pela experiência histórica, é o conjunto dos princípios (por exemplo, a igualdade entre todos os seres humanos com respeito ao direito à vida…); das regras (a democracia representativa fundada sobre o sufrágio universal…); das instituições (os parlamentos, as municipalidades, a magistratura, as escolas…) e dos meios (o sistema fiscal, por exemplo, a memória, os símbolos…) que uma sociedade se dá para permitir que todos os seus membros vivam digna e decentemente e que contribuam ao viver juntos no respeito das diversidades de cada um e em cooperação com as outras comunidades humanas.
Centrais à concreta realização do Bem Comum são os “bens comuns”, isto é, aqueles bens (e os serviços conexos) que são essenciais e insubstituíveis à vida e ao viver juntos, como o ar, a água, o solo, a saúde, o conhecimento, a segurança, a informação, o trabalho, a memória… Nesse sentido, os “bens comuns” fazem parte do campo dos direitos humanos e sociais, individuais e colectivos, e são, por definição, públicos e universais. Existem “bens comuns” privados, isto é, relativos a um sujeito específico, como uma cooperativa, uma cidade, uma congregação religiosa, um clube de futebol. Vale o mesmo para os bens comuns “locais”, ligados a uma colectividade territorial específica (uma região, um Estado, um continente…). Esses bens não possuem, no entanto, a qualidade de serem essenciais e insubstituíveis para a vida e para o viver juntos em geral.
Os bens comuns são o principal instrumento do ser e do viver juntos. Não pertencem ao campo das escolhas individuais e/ou colectivas. Eles são inerentes ao existir e ao viver juntos. Nesse sentido, o bem comum fundamental é representado pela existência do outro. O outro não é somente o outro humano, embora o outro humano seja aquilo que tem mais valor estruturante com respeito à socialidade dos seres humanos. O outro é também o mundo não humano (por outro lado, sempre mais “man made”). Por isso é possível, há alguns anos, falar de “sustentabilidade global” da vida. A sustentabilidade implica a centralidade irrenunciável das relações de alteridade (entre humanos e humanos, e entre humanos e a natureza).
O objecto do Bem Comum é a riqueza (a vida) colectiva (o viver juntos). Hoje estamos na obrigação de (re)construir o (pouco de) bem comum que o Estado social, o welfare, havia prometido e desenvolvido.
Para tal fim é necessário (re)construir a economia, isto é, o ‘oikos nomos’ que em grego significa as “regras da casa”. O desmantelamento da “res publica” destruiu a economia. A economia actual é a negação do viver juntos. É um abuso de sentido utilizar o conceito de “economia” para falar do sistema predatório actual.
IHU On-Line – Diz o pontífice: “A confiança recíproca entre os homens e os Estados só pode nascer e consolidar-se através do reconhecimento e do respeito pela ordem moral. A ordem moral não pode existir sem Deus” (n.206-207). De que modo essa ordem moral pode ser experimentada e concretizada na actual situação socioeconómica? É possível?
Riccardo Petrella – A ordem moral actual é intrinsecamente utilitarista, materialista, oportunista, individualista, elitista, excludente, violenta. Na actual situação socioeconómica, a chamada “responsabilidade social da empresa”, a “ética do business” ou a tese sobre o “consumidor responsável” são principalmente fumo nos olhos. Certamente, podem encontrar-se aqui e lá exemplos de empresas, principalmente pequenas e médias, cujos dirigentes procuram “respeitar” alguns princípios humanos e sociais. Trata-se, porém, de fenómenos limitados: é o caso dos operadores activos no “comércio justo”, no “banco ético”, nas “finanças sociais”, na “empresa social”.
IHU On-Line – Como o senhor vê a relação entre trabalho, remuneração e economia? Como adequar – como o propõe João XXIII – o “desenvolvimento económico” e o “progresso social”?
Riccardo Petrella – Reconstruir a economia, reafirmar o direito à vida para todos, repromover o viver juntos, passa, a meu ver, por meio de uma nova fase de construção da “sociedade dos bens comuns”, uma sociedade tanto a nível “local” como “mundial”, fundada sobre o reconhecimento do outro como condição da nossa própria existência e sobre a promoção da riqueza colectiva, no respeito dos direitos/deveres das gerações futuras.
Entre os principais passos a serem cumpridos, parece-me que devem figurar: o reconhecimento da água, do ar, das florestas, do sol, do conhecimento, da saúde e do trabalho como bens comuns públicos e mundiais; e a definição e realização de uma nova arquitectura financeira (reinventar as finanças e o sistema fiscal público) e política (em particular, a afirmação da humanidade como sujeito jurídico e político. Passar da Organização das Nações Unidas – ONU à Organização Mundial da Humanidade – OMU).
Nesse contexto, o trabalho deve ser redefinido como uma função social, como um processo de concepção e de criação, acima de tudo, da riqueza colectiva, dos bens comuns, da segurança e melhoria do viver juntos e, depois, de maneira complementar, como um processo de criação de riqueza individual. Até que o trabalho seja, juntamente com os princípios humanos e sociais de base, o fundamento concreto das “regras da casa”, a economia, o acesso ao trabalho deve fazer parte integral dos direitos humanos e sobre isso deve ser construído o sistema de promoção e redistribuição da riqueza comum. Os princípios que hoje governam o trabalho são de todo contrários à justiça social e ao viver juntos. Consequentemente, também a renda representa na economia actual uma deformação estrutural daquele que deveria ser o conceito de “remuneração” justa e apropriada da contribuição do trabalho à criação dos bens comuns e do Bem Comum. As actuais desigualdades de rendimento, sempre maiores, entre os seres humanos e os países representam uma violência sistemática perpetrada, deliberadamente, em confronto com os direitos à vida para todos. Eles constituem uma declaração de guerra contra o viver juntos. Hoje a riqueza é produzida para fazer crescer o valor do capital privado e é redistribuída principalmente a favor dos rendimentos do capital, em detrimento dos rendimentos do trabalho. É urgente reestruturar o sistema fiscal que, actualmente, favorece a evasão fiscal, a ilegalidade e as classes ricas, penalizando as classes pobres e o trabalho honesto e regular. O sistema fiscal progressivo e redistributivo deverá ser redefinido a níveis nacional, internacional e mundial.
IHU On-Line – Outro conceito analisado pelo papa é a “propriedade”. Como o senhor percebe a diferença entre propriedade pública e propriedade privada? Como podemos entender estes conceitos à luz do clima económico atual?
Riccardo Petrella – Como foi assinalado acima, a distinção basilar refere-se aos bens públicos (e serviços conexos) e aos bens privados. Os primeiros têm como destino final o de permitir e garantir o direito à vida para todos e o viver juntos. Não podem, portanto, ser objecto de apropriação privada nem ser submetidos aos mecanismos de mercado. Eles fazem parte da responsabilidade da colectividade e devem ser financiados, governados e geridos por organismos públicos, fundados sobre a real e efectiva participação dos cidadãos nas decisões.
A sua indisponibilidade à apropriação privada e ao mercado os torna livres da submissão à lógica do rendimento financeiro, isto é, à criação de valor para o capital privado. Para os bens comuns públicos, a medida do seu valor é dada pela contribuição que eles aportam à criação das condições necessárias e suficientes para permitir a todos terem acesso a uma vida decente e digna. O governo dos bens comuns públicos é, por definição, objecto de uma forte cooperação e solidariedade entre os povos e as comunidades humanas. Quanto mais os bens comuns públicos forem reconhecidos e o forem por todos, menos as causas de conflitos e de guerras entre grupos sociais, coletividades territoriais e Estados terão razão de existir.
A apropriação privada dos bens essenciais e insubstituíveis para a vida e o viver juntos é fonte de conflitos, de violências e de guerras. Não há paz entre os povos se ditos bens podem ser apropriados por uns em detrimento dos outros. A economia de justiça, a economia justa, passa através dos bens comuns públicos. Os processos atuais de privatização de quase todos os bens da Terra e dos seres humanos têm conduzido à mercantilização generalizada da vida. A mercantilização da água, em particular, é totalmente inaceitável. Ela significa a dessacralização da vida.
IHU On-Line – Diversas são as encíclicas que falam da questão social: Rerum Novarum (1891), Quadragesimo Anno (1931), Mater et Magistra (1961), Populorum Progressio (1967), Octagesima Adveniens (1971), Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987), Centesimus Annus (1991), Caritas in Veritate (2009). Como o senhor avalia os principais pontos defendidos pela Doutrina Social da Igreja? Os seus fundamentos económicos são discutíveis?
Riccardo Petrella – A meu ver, a Igreja jamais deveria ter aceitado e jamais deveria aceitar a privatização e a mercantilização dos bens comuns essenciais e insubstituíveis para a vida e o viver juntos que foram analisados acima.

* Riccardo Petrella nasceu na Itália e hoje vive na Bélgica. É economista e cientista político, doutor em ciências políticas pela Universidade de Florenza. Com diversos doutorados honoris causa, é professor emérito da Université Catholique de Louvain. Em 1991, fundou o Grupo de Lisboa, composto por membros universitários, empresários, jornalistas e agentes culturais para promover análises críticas das formas actuais da mundialização. Em 1997, fundou o Comité Internacional para um Contrato Mundial da Água e, a partir de 2003, iniciou a Université du Bien Commun, que actua de modo experimental na Itália (Faculdade da Água) e na Bélgica (Faculdade da Alteridade).

domingo, 26 de junho de 2011

Hospitais públicos perderam 79 médicos só num ano

Um estudo da Direcção-Geral de Saúde (DGS) conclui que os hospitais públicos perderam 79 médicos num só ano. A maioria dos médicos saiu por aposentação. O Bloco já tinha alertado que a falta de médicos está a desmembrar o SNS e apresentou propostas de solução.
A falta de médicos está a desmembrar o SNS - Foto de jasleen_kaur/flickr
A falta de médicos está a desmembrar o SNS - Foto de jasleen_kaur/flickr
A falta de médicos está a provocar uma grave crise no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em cinco anos, o SNS perde quase 3.000 médicos e nos próximos 10 anos o problema pode agravar-se ainda mais. O relatório da DGS sobre os hospitais públicos confirma a situação, que é ainda mais grave nos centros de saúde.
Segundo o relatório da DGS, os hospitais públicos perderam, em 2009, 46 cirurgiões, 20 ortopedistas e 13 otorrinolaringologistas. Outras especialidades também perdem médicos, como são os casos de dermatologia, psiquiatria, obstetrícia, gastrenterologia, medicina interna, e urologia.
Em declarações ao jornal “I”, o Director-Geral de Saúde, Francisco George confirma que o problema dos centros de saúde é ainda mais grave e refere:"A saída de médicos tem implicações ao nível da produção, ou seja, tendo menos médicos o número de consultas é menor. Neste momento estamos preocupados com os serviços de proximidade, com os médicos de família que trabalham nos centros de saúde."
O deputado João Semedo já tinha alertado para o problema, tendo chamado a atenção que só nos dois primeiros meses de 2011 se tinham reformado mais 103 médicos família. O Bloco de Esquerda salientou então que as medidas tomadas pelo anterior Governo não resolviam o problema e propôs medidas concretas para a sua solução:
- O regresso dos médicos reformados ao SNS, o alargamento voluntário das listas de utentes dos médicos de família, a criação de novas regras para a inscrição e actualização das listas dos utentes dos médicos de família.
- A garantia de vaga no internato de especialidade e que o SNS contrate os estudantes portugueses em faculdades de medicina no estrangeiro (cerca de 1.200) para promover o seu regresso.
- A criação de um programa nacional de emergência, que permita atribuir médico de famílias a todos os portugueses que o pretendam, no prazo máximo de um ano.

Batalhas

A criação de um discurso que opõe o sacrifício das pessoas ao privilégio e irrealismo político dos movimentos sociais, começando pelo sindical, é a táctica presente para a desagregação do campo organizado dos que vivem do trabalho.
O novo Governo tomava posse e já os corpos de Carlos Moedas e Vítor Gaspar tinham aquecido, umas horas antes, os lugares numa reunião com a troika. Quem manda marca as horas e está visto que o novo Governo discutirá as medidas que importam em inglês. E parece que há mais gente a dominar o idioma. Ferraz da Costa aparenta ter lido com atenção as missivas da revistaThe Economist1que identifica os sindicatos como a “próxima batalha” a ser travada pelos governos europeus.
Este ex-patrão dos patrões portugueses preside ao Fórum da Competitividade (uma associação lançada por Mira Amaral, patrocinada pelo BES, BPI, Mello Saúde, EFACEC, Galp e tantos outros grupos) e tem por companhia na direcção homens como Nogueira Leite, Luís Palha, Vítor Bento, João Salgueiro ou Miguel Cadilhe. Todos eles com o número de Passos Coelho na lista telefónica. Em recente entrevista, Ferraz da Costa reavivou a sanha de esganar o “monopólio sindical”, pondo em causa a representatividade e legitimidade das estruturas sindicais na negociação colectiva. Seriam apenas desabafos de um patrão apoquentado não fossem, igualmente, pontos do programa do PSD.
Este ataque encerra mais do que o desejo de aniquilamento dos sindicatos, que ainda separam esta gente da mobilidade total da força de trabalho e da redução abrupta dos salários, é também uma investida contra a escolha da militância e a hipótese da mobilização. A criação de um discurso que opõe o sacrifício das pessoas ao privilégio e irrealismo político dos movimentos sociais, começando pelo sindical, é a táctica presente para a desagregação do campo organizado dos que vivem do trabalho. É um discurso que passa em horário nobre e que colheu os seus frutos no último 5 de Junho.
A tarefa imediata é, portanto, provar que estão errados. Esta semana foi lançada um apelo “por uma auditoria à dívida portuguesa”, que é assinado por sindicalistas, activistas e académicos. Vem no tempo certo. A criação de um movimento popular que leve a cabo uma campanha pela auditoria à dívida portuguesa constitui uma oportunidade não só de romper com a espiral da chantagem da bancarrota, desnudando a artificialidade e a usura do endividamento, mas também de criar uma frente capaz de unir sectores tão distintos como os sindicatos, partidos da esquerda, movimentos de precários, novos movimentos assembleístas e tantas pessoas que não aceitam o garrote da troika. A batalha da dívida continua a ser a chave da questão política em Portugal.
Abrir o campo de disputa pela identificação das batalhas que valem a pena ser travadas e com quem devem ser travadas é o que definirá a força de uma esquerda socialista nos próximos tempos. A revisão constitucional, a alteração do Código do Trabalho e as privatizações generalizadas impõe que comecemos desde já a construir uma resposta social. A luta dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana, da CP, da CRH em Coimbra, dos formadores do IEFP, assim como das pessoas que nos últimos meses se reuniram e acamparam nas praças do país procurando soluções para uma crise que condena 800 mil pessoas ao desemprego e 2 milhões ao trabalho precário, depende, mais do que nunca, da vitória da mobilização sobre a chantagem da fatalidade.

1 “The public sector unions: The batlle ahead”, 06.01.2011.

O pacote

É trágico que a política económica se reduza à disciplina orçamental e à política monetária.
Ao fim de largos meses, o pacote relativo à coordenação económica europeia foi esta semana a votos no Parlamento Europeu. É composto por seis relatórios de desigual importância. Três deles são inteiramente "ortodoxos". Incidem sobre o défice e a dívida "excessivos", na linha do Pacto de Estabilidade e Crescimento em vigor. Podem ser considerados como modificações aos Regulamentos, tornando-os mais estritos e de aplicação automática. A sua lógica é punitiva, quer na fase preventiva, quer na fase correctiva. Admite depósitos ou cauções que podem ser transformados em multas caso os Estados Membros não cumpram os limites exigidos pelos PEC´s nos prazos estabelecidos. A contradição desta lógica não pode ser mais flagrante: afinal, as sanções pecuniárias agravam os problemas que visam resolver.
A disciplina punitiva só aparentemente é cega. Na verdade, os países com superavitscomerciais são os que têm menores dificuldades com o défice orçamental e a dívida pública. As reguadas e sovas de cinto de Bruxelas só se aplicam a quem já se encontra em dificuldades. Para Portugal, é promessa garantida de mais problemas. Admitindo por absurdo que os Estados e os governos devem ser tratados como crianças – esta é a dinâmica profunda deste modelo de coordenação – podiam ao menos os textos admitir uma estratégia de incentivos. Mas não, nem isso. Neste pacote o pau dispensa a cenoura. Vai dar péssimo resultado.
O único relatório que procura contrariar esta tendência tem a assinatura de Elisa Ferreira. Ele ocupa-se da prevenção dos grandes desequilíbrios macroeconómicos. Sobre eles se deveria, aliás, concentrar a coordenação económica de que a Europa precisa. O défice e a dívida não são mais importantes do que os excedentes e défices comerciais, o emprego e o desemprego, os desafios de ordem ambiental ou os níveis de investimento público e privado que garantem uma estratégia de crescimento sustentável. Este tipo de coordenação abrangente, baseado num painel de indicadores que identifique desequilíbrios internos e externos numa fase precoce, é sensato, razoável e deve ser apoiado. Qual é, então, a dificuldade? É que este relatório é o parente pobre de uma coordenação económica que continua a ter no défice e na dívida o seu alfa e o seu ómega.
É trágico que apolítica económica se reduza à disciplina orçamental e à política monetária. Com efeito, os excedentes e os défices comerciais dos Estados são, em boa medida, a cara e a coroa de uma moeda sobrevalorizada, o euro. A fractura que se abriu a este propósito na União, está a ser radicalmente agravada pela ditadura do controlo do défice. Para Portugal e para a Grécia, esta Europa, mais do que uma comunidade de destino, começa a transformar-se numa prisão. Por este caminho, isto ainda acaba mal.

sábado, 25 de junho de 2011

Sindicalistas e académicos apelam a auditoria à dívida

O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, e o economista da Universidade de Coimbra José Castro Caldas são duas das figuras que subscrevem o texto de apelo público para que seja feita uma auditoria à dívida portuguesa com a participação da sociedade civil.
O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, é um dos promotores da petição “Por uma auditoria à dívida portuguesa”. Foto de Tiago Petinga/Lusa.
O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, é um dos promotores da petição “Por uma auditoria à dívida portuguesa”. Foto de Tiago Petinga/Lusa.
O texto, intitulado “Apelo a Iniciativa Unitária por uma Auditoria à Dívida Portuguesa”, é assinado por 38 figuras ligadas à academia e ao movimento sindical e defende uma auditoria da dívida “com participação da sociedade civil e do movimento dos trabalhadores” como forma de “determinar que partes da dívida são ilegais, ilegítimas, odiosas ou simplesmente insustentáveis”.
“É urgente, neste contexto, a constituição de uma comissão popular, aberta e de convergência unitária, para uma auditoria à dívida portuguesa”, lê-se no texto do apelo que acrescenta que uma auditoria nestes moldes “oferece aos trabalhadores o conhecimento e a autoridade necessários para a definição democrática de políticas nacionais perante a dívida”.
Segundo os subscritores, esta auditoria “incentiva igualmente a responsabilidade, a prestação de contas e a transparência da administração do Estado”.
Medidas de austeridade anti-populares têm de ser postas em causa
“A austeridade e as medidas de privatização pressionam em primeiro lugar os mais pobres, enquanto as ‘ajudas’ são para quem está na origem da crise. Se as medidas de austeridade anti-populares não forem postas em causa, terão um impacto considerável na Europa durante muitos anos, modificando de forma drástica a relação de forças em favor do capital e em prejuízo do trabalho”, conclui o texto.

Transcrevemos aqui o texto do apelo:
Apelo a Iniciativa Unitária por uma Auditoria à Dívida Portuguesa
A austeridade e as medidas de privatização pressionam em primeiro lugar os mais pobres, enquanto as “ajudas” são para quem está na origem da crise. Se as medidas de austeridade anti-popular não forem postas em causa, terão um impacte considerável na Europa durante muitos anos, modificando de forma drástica a relação de forças em favor do capital e em prejuízo do trabalho.
A auditoria da dívida é um passo concreto em direcção à justiça em matéria de endividamento. As auditorias da dívida com participação da sociedade civil e do movimento dos trabalhadores permitem determinar que partes da dívida são ilegais, ilegítimas, odiosas ou simplesmente insustentáveis; oferecem aos trabalhadores o conhecimento e a autoridade necessários para a definição democrática de políticas nacionais perante a dívida; incentivam igualmente a responsabilidade, a prestação de contas e a transparência da administração do Estado.
É urgente, neste contexto, a constituição de uma Comissão Popular, aberta e de convergência unitária, para uma Auditoria à Dívida portuguesa. Subscrevem este apelo, sinalizando a sua disponibilidade para o desenvolver na prática, um conjunto de activistas sindicais, de comissões de trabalhadores e de organizações cívicas, associativas e políticas.
Subscritores/as:
Manuel Carvalho da Silva (secretário geral da CGTP-IN, Lisboa), António Avelãs (presidente do SPGL), Pedro Ferreira (economista, Coimbra), Guadalupe Simões (Enfermeira, Faro),Elísio Estanque (universidade, Coimbra), Rui Maia (Precários Inflexíveis, Lisboa), Adriano Campos (FERVE, Porto), Paulo Granjo (universidade, Lisboa), José Rodrigues (sindicalista),José Castro Caldas (universidade Coimbra), Jorge Bateira (economista, Porto), Francisco Alves (sindicalista, Lisboa), Maria da Paz Campos Lima (socióloga, Lisboa), António José Vitorino (bancário, Almada), Joaquim Piló (sindicalista), Viriato Jordão (Lisboa), José Almeida (sindicalista, Lisboa), Guilherme da Fonseca Statter (sociólogo do trabalho), José Rebelo (universidade, Lisboa), Manuel Carlos Silva (professor, sindicalista), Isabel Frutas Carvalho Ascenção (SERAM-Madeira), Janine Rodrigues (enfermeira, SERAM Madeira),Artur Oliveira Baptista (sindicalista, Lisboa), Carlos Valdez Vasconcelos (professor, Lisboa),Carolina Fonseca (trabalhadora, Lisboa), Lídia Fernandes (feminista, Lisboa), Cristina Oliveira Nunes (socióloga, Lisboa), Marco Marques (Precários Inflexíveis, Lisboa), Almerinda Bento (professora, Amora), Manuel Zebral (desempregado, Galiza), Dora Fonseca(Universidade, Porto), Maria da Conceição Sousa (enfermeiro, C. Branco), António Pedro Dores (universidade, Lisboa), Assunção Bacanhim (sindicalista, Funchal), Manuel Martins(CT Autoeuropa, Palmela), Bruno Semeano (CT Faurécia, Palmela), Deolinda Martin(professora, Amadora).

Comunicado do Bloco de Esquerda sobre a Escola EB2,3 de Minde

Consulte no link abaixo:

Requerimento ao Secretário de Estado do Ambiente

Bloco requereu a vinda do Secretário de Estado do Ambiente

à AR para esclarecer funcionamento da ETAR de Alcanena

O deficiente funcionamento da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Alcanena, com mais de 20 anos, tem sido extremamente penalizador para a qualidade de vida e saúde pública das populações deste concelho, além de ser responsável pela poluição de recursos hídricos e solos.

Esta ETAR, destinada a tratar os efluentes da indústria de curtumes, foi desde a sua origem mal concebida, a começar por se situar em leito de cheia. Desde então os problemas são conhecidos e persistem: maus cheiros intensos; incumprimento regular dos valores-limite estabelecidos para o azoto e CQO das descargas de efluente tratado em meio hídrico; célula de lamas não estabilizadas, com deficiente selagem e drenagem de lixiviados e biogás; redes de saneamento corroídas, com fugas de efluentes não tratados para o ambiente; saturação da ETAR devido a escoamento das águas pluviais ser feita nas redes de saneamento.

Desde há muito que estes problemas são conhecidos e nada justifica, ainda mais com todo o avanço tecnológico existente ao nível do funcionamento das ETAR, que se chegue ao final de 2010 com esta situação. E pior se compreende quando é o próprio Ministério do Ambiente a constatar que gastou ao longo dos anos cerca de 50 milhões de euros para tentar responder a estes problemas.

Em Junho de 2009 foi assinado um protocolo para a reabilitação do sistema de tratamento de águas residuais de Alcanena pela ARH Tejo, o INAG, a Câmara Municipal e a AUSTRA (gestora da ETAR), com investimentos na ordem dos 21 milhões de euros de comparticipação comunitária.

Este protocolo inclui cinco projectos, os mais importantes dos quais com prazo final apenas em 2013, o que significa arrastar os principais problemas identificados até esta data. Como os prazos de início dos estudos destes projectos já sofreram uma derrapagem, dúvidas se colocam sobre o cumprimento dos prazos estabelecidos, ainda mais quando não há certezas sobre a disponibilização de verbas nacionais para co-financiar os projectos, tendo em conta o contexto de contenção actual.

Considerando a gravidade dos problemas causados pela ETAR de Alcanena para as populações e o ambiente, o deputado José Gusmão e a deputada Rita Calvário do Bloco de Esquerda solicitam uma audiência com o Secretário de Estado do Ambiente, com a finalidade de obter esclarecimentos sobre os investimentos previstos para a reabilitação do sistema de tratamento, as soluções escolhidas, o cumprimento de prazos, e as garantias que os mesmos oferecem para resolver o passivo ambiental existente, os focos de contaminação dos recursos hídricos e solo, os maus cheiros e qualidade do ar respirado pelas populações deste concelho. Seria de todo útil que o presidente ou representantes da ARH-Tejo estivessem presentes nesta audiência.

Lisboa, 17 de Dezembro de 2010.

A Deputada O Deputado

Rita Calvário José Gusmão

Direito a não respirar “podre” – SIM ou NÃO?





No passado domingo, dia 12 de Dezembro, no Auditório Municipal de Alcanena, realizou-se uma conferência, dinamizada pelo Bloco de Esquerda, sobre a poluição em Alcanena.
Esta sessão reuniu um grupo de ‘preocupados’, que primeiramente ouviram as exposições de especialistas sobre o assunto e, no final, trocaram experiências e pontos de vista, baseados na própria vivência, bem como em conhecimentos técnicos e científicos.
Ficou bem patente que se trata de um grave problema de há muito sentido, mas também desvalorizado, do qual até ao momento não se conhecem as verdadeiras implicações para a saúde pública, mas que transtorna a vida de todos os que vivem e trabalham no concelho, tornando desagradável e doentio o seu dia a dia.
Ficou também claro que o Bloco de Esquerda, aliado desta causa, não abandonará a luta, que será levada até onde os direitos das pessoas o exigirem.

Comunicado de Imprensa

Leia em baixo o Comunicado de Imprensa de 3 de Dezembro do Bloco de Esquerda em Alcanena.

Clique aqui para ler

Reclamamos o DIREITO A RESPIRAR

Bloco de Esquerda continua na senda de uma solução para o grave problema de poluição ambiental em Alcanena



Na passada sexta-feira, dia doze de Novembro, uma delegação, composta pelo Deputado do Bloco de Esquerda pelo Distrito de Santarém, José Gusmão, e mais dois elementos do Bloco, foi recebida pela administração da Austra, no sentido de esclarecer alguns pontos relativos ao funcionamento da ETAR e à poluição que de há muito tem afectado Alcanena, com acrescida intensidade nos últimos tempos.

O Bloco de Esquerda apresentou já um requerimento ao Ministério do Ambiente, aguardando resposta.

Após a reunião com a administração da Austra, realizou-se na Sede do Bloco em Alcanena uma Conferência de Imprensa para fazer o ponto da situação.

Da auscultação da Austra, ficou claro para o Bloco de Esquerda que a ETAR de Alcanena não reúne as condições minimamente exigíveis, quer do ponto de vista do cumprimento da lei, quer da garantia de índices de qualidade do ar compatíveis com a saúde pública e o bem estar das populações.

A delegação do Bloco de Esquerda obteve do presidente da Austra o compromisso da realização de operações de monitorização da qualidade do ar em Alcanena, a realizar o mais tardar em Janeiro. De qualquer forma, o Bloco de Esquerda envidará esforços para que essa monitorização ocorra de forma imediata.

Embora existam planos para a total requalificação dos sistemas de despoluição, registamos com preocupação a incerteza sobre os financiamentos, quer nacional quer comunitário. O Bloco de Esquerda opor-se-á a que estes investimentos possam ser comprometidos por restrições orçamentais, e exigirá junto do Governo garantias a este respeito.

A participação popular foi e continuará a ser um factor decisivo para o acompanhamento e controlo da efectiva resolução do problema da qualidade do ar em Alcanena.

No âmbito da visita do Deputado do Bloco de Esquerda, José Gusmão, ao Concelho de Alcanena, realizou-se um jantar-convívio no Restaurante Mula Russa em Alcanena, ocasião também aproveitada para dialogar sobre assuntos inerentes ao Concelho. Mais tarde, José Gusmão, conviveu com um grupo de jovens simpatizantes num bar deste concelho.

No sábado, dia treze de Novembro, José Gusmão e outros elementos do Bloco de Esquerda estiveram em Minde, no Mercado Municipal, distribuindo jornais do Bloco, ouvindo e conversando com as pessoas.

Neste mesmo dia, junto ao Intermarché de Alcanena, José Gusmão contactou com as pessoas e entregou jornais do Bloco de Esquerda.

Num almoço realizado em Minde, no Restaurante Vedor, com um grupo de aderentes e simpatizantes do Bloco, houve mais uma vez oportunidade para ouvir opiniões, experiências e expectativas, bem como de exprimir pontos de vista.

O Bloco de Esquerda continuará a luta por um direito que parece ser inerente à própria condição humana, mas que vem sendo negado às pessoas que vivem e trabalham em Alcanena – o direito de respirar ar “respirável” e de não ser posta em causa a sua saúde.


A Coordenadora do Bloco de Esquerda de Alcanena

Poluição em Alcanena: Requerimento à Assembleia da República

Pessoas esclarecidas conhecem o seu direito de respirar ar puro e lutam pela sua reconquista já que alguns até isto usurparam.

O Bloco de Esquerda encetou a luta pela despoluição de Alcanena na legislatura anterior e continuará a manifestar-se e a rebelar-se contra esta desagradável e injusta situação até que no nosso concelho possamos respirar de novo.


Veja aqui Requerimento apresentado pelo BE quanto à questão da poluição em Alcanena

Carta à AUSTRA

Carta entregue pelo grupo de cidadãos "Chega de mau cheiro em Alcanena" ao Presidente da Austra e Presidente da Câmara Municipal de Alcanena

INAUGURAÇÃO DA SEDE DO BLOCO DE ESQUERDA EM ALCANENA

Francisco Louçã inaugurou no passado domingo, dia 31 de Outubro, a Sede do Bloco de Esquerda em Alcanena. Na inauguração esteve também representada a Coordenação Distrital do Partido; estiveram presentes aderentes e convidados. Esta ocasião especial foi uma oportunidade de convívio, acompanhada de um pequeno beberete.
Francisco Louçã falou, como sempre, de forma clara e apelativa, abordando a actual situação crítica do país,apontando as razões, propondo alternativas e caminhos.
Baseando-se no Socialismo Democrático, o Bloco de Esquerda tem sido sempre activo na defesa dos valores da verdadeira Democracia, e propõe-se continuar essa luta. Esta nova Sede é mais um ponto de encontro, de trabalho, de partilha de pontos de vista e de tomada de iniciativas, possibilitando que se ouçam as vozes de todas as pessoas e transmitindo os seus problemas e expectativas.
Trata-se de um pequeno espaço, que representa uma grande vontade de mudança e que espera contar com a presença de todos os que partilhem os ideais de um concelho mais próspero, de uma sociedade mais justa e equilibrada, de um país realmente mais avançado.